MAAP #251: Mineração ilegal de ouro transfronteiriça: Brasil (rio Puruê) e Colômbia (rio Puré)

outubro 28, 2026

Figura 1. Mapa-base da área de mineração transfronteiriça Colômbia-Brasil. Dados: ACA/MAAP

*Este relatório transfronteiriço é uma colaboração com o Field Museum of Natural History, como parte de um Inventário Biológico e Social Rápido do Alto Rio Japurá e Puruê, coordenado pelo Field Museum em parceria com 11 organizações de pesquisa e federações indígenas no Brasil.

Em um relatório recente (MAAP nº 245), documentamos o avanço do desmatamento associado à mineração de ouro ao longo do rio Puré, que atravessa o coração do Parque Nacional do Rio Puré, no sudeste da Amazônia colombiana.

Especificamente, relatamos que esse processo de desmatamento teve início em 2024, intensificou-se em 2025 e já havia afetado mais de 500 hectares até maio de 2026.

Neste relatório, destacamos ainda que o rio Puré atravessa o noroeste da Amazônia brasileira, onde passa a ser denominado rio Puruê, afluente do rio Japurá, que, por sua vez, integra a bacia do alto rio Amazonas (ver Figura 1 – Mapa-base).

A região remota dos rios Puré e Puruê, embora remota, possui importância estratégica devido à sua excepcional biodiversidade, aos elevados estoques de carbono e à presença de comunidades indígenas, incluindo povos indígenas que vivem em isolamento voluntário (especificamente, os Yurí e os Passé).

Apresentamos aqui novos dados sobre o desmatamento causado pela mineração de ouro ao longo de toda a região dos rios Puré (Colômbia) e Puruê (Brasil), configurando um importante estudo de caso transfronteiriço.

Em síntese, documentamos 7.900 hectares de desmatamento associado à mineração de ouro entre 2001 e 2026 na região transfronteiriça dos rios Puré e Puruê. Embora as primeiras evidências da atividade minerária no lado brasileiro remontem a 2001, 88% desse desmatamento ocorreu a partir de 2022, indicando uma forte intensificação da mineração nos últimos anos. A maior parte da atividade minerária (92%) concentrou-se no lado brasileiro (rio Puruê), mas, mais recentemente, também se expandiu e se intensificou no lado colombiano (rio Puré).

Desmatamento associado à mineração de ouro transfronteiriça (Gráfico)

A Figura 2 apresenta a evolução do desmatamento associado à mineração de ouro ao longo do rio Puruê, no Brasil (barras laranja), e do rio Puré, na Colômbia (barras amarelas).

As primeiras evidências de desmatamento relacionado à mineração foram detectadas no lado brasileiro em 2001. Nas duas décadas seguintes, a área afetada aumentou gradualmente, alcançando um total acumulado de 980 hectares até o final de 2021.

Em seguida, observou-se um forte aumento da atividade minerária no lado brasileiro, com um pico de desmatamento em 2022 e 2023, quando foram registrados 4.130 hectares apenas nesses dois anos.

A partir de 2024, o desmatamento associado à mineração também passou a ser detectado no lado colombiano. Embora em níveis inferiores aos observados durante o pico no Brasil, o desmatamento combinado nos dois países permaneceu elevado entre 2024 e junho de 2026, totalizando 2.791 hectares nesse período.

No total, estimamos 7.901 hectares de desmatamento associados à mineração de ouro na região transfronteiriça dos rios Puré e Puruê até junho de 2026. Desse total, 92% (7.307 hectares) ocorreram no lado brasileiro (rio Puruê), enquanto 8% (594 hectares) foram registrados no lado colombiano (rio Pure).

Figura 2. Desmatamento associado à mineração de ouro na área de estudo. Dados: Amazon Conservation/MAAP

Operações governamentais

Em resposta ao avanço da mineração ilegal de ouro e ao aumento do desmatamento na região, foram realizadas sete operações governamentais recentes voltadas ao combate da atividade minerária ilegal nos rios Puruê e Puré (ver linhas roxas na Figura 2).

Três dessas operações foram conduzidas por meio de cooperação binacional entre Brasil e Colômbia, enquanto as outras quatro se concentraram exclusivamente no lado brasileiro.

A primeira operação binacional registrada ocorreu em dezembro de 2023. Embora ainda não houvesse evidências de desmatamento associado à mineração no lado colombiano naquela época, já havia a presença de balsas de mineração no rio Puré.

Posteriormente, foram realizadas duas importantes operações binacionais em 2025, nos meses de maio e novembro, período em que o desmatamento associado à mineração se intensificava na Colômbia. Essas ações envolveram a coordenação de instituições colombianas, incluindo a Procuradoria-Geral da República, por meio da Diretoria de Crimes Especializados contra o Meio Ambiente, a Força Aeroespacial Colombiana e o Exército Nacional da Colômbia, juntamente com instituições brasileiras, como o Ministério da Defesa, o Exército Brasileiro, a Polícia Federal e o ICMBio.

Os resultados indicam que essas operações tiveram efeitos positivos no curto prazo, mas não foram suficientes para interromper de forma duradoura as atividades de mineração. Após a operação de maio de 2025, por exemplo, o desmatamento associado à mineração diminuiu no lado colombiano durante os meses de junho e julho, mas voltou a aumentar de forma acentuada em novembro do mesmo ano.

Situação semelhante foi observada após a operação de novembro de 2025. Houve redução do desmatamento relacionado à mineração em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, porém a atividade voltou a ganhar intensidade a partir de março de 2026.

Desmatamento transfronteiriço associado à mineração de ouro (mapas)

Figura 3. Desmatamento associado à mineração de ouro nas áreas de estudo. Dados: Amazon Conservation/MAAP

A Figura 3 mostra a distribuição espacial do desmatamento associado à mineração de ouro ao longo dos rios Puré e Puruê, na Colômbia e no Brasil, respectivamente.

Conforme apresentado anteriormente, estimamos um total de 7.901 hectares de desmatamento associado à mineração de ouro até junho de 2026, dos quais 92% ocorreram no lado brasileiro, ao longo do rio Puruê.

No mapa, o desmatamento acumulado entre 2001 e 2021 (980 hectares) está representado em amarelo. O período de maior expansão da atividade minerária, entre 2022 e 2023 (4.130 hectares), aparece em laranja. Já o desmatamento mais recente, registrado entre 2024 e junho de 2026 (2.791 hectares), está indicado em vermelho.

No lado brasileiro, observa-se que o desmatamento associado à mineração ao longo do rio Puruê se estende desde sua confluência com o rio Japurá até a fronteira com a Colômbia, incluindo diversos afluentes localizados ao sul. A partir de 2024, a atividade minerária avançou para o lado colombiano, ao longo do rio Puré.

Devido à ampla extensão da área afetada, os padrões espaciais do desmatamento associado à mineração podem ser difíceis de visualizar em escala regional. Por esse motivo, as seções seguintes apresentam uma análise mais detalhada de quatro áreas representativas, duas em cada país.

Ampliações do desmatamento associado à mineração de ouro

Em cada uma das quatro ampliações apresentadas a seguir, mostramos os dados de desmatamento associado à mineração de ouro, acompanhados por painéis de imagens de satélite que permitem comparar as condições anteriores e posteriores à expansão da atividade minerária. A localização de cada área ampliada pode ser consultada nos quadros 1 a 4 da Figura 3, sendo duas áreas situadas no Brasil e duas na Colômbia.

Ampliação 1: Rio Puruê (Brasil)

Ampliação 2: Rio Puruê (Brasil)

Ampliação 3: Rio Pure (Colômbia)

Ampliação 4: Rio Pure (Colômbia)

Implicações para políticas públicas

Os resultados apresentados neste relatório documentam um importante caso de garimpo ilegal de ouro em uma região transfronteiriça da Amazônia, localizada entre o sudeste da Colômbia e o noroeste do Brasil.

No lado brasileiro (rio Puruê), a escala e a persistência da atividade garimpeira ilegal indicam um desafio que dificilmente poderá ser enfrentado apenas por meio de operações pontuais de fiscalização. O Brasil concentra a grande maioria do desmatamento associado à mineração documentado no corredor Puré-Puruê (92%, ou mais de 7.300 hectares), com impactos distribuídos ao longo de toda a bacia, desde a confluência do rio Puruê com o rio Japurá até a fronteira com a Colômbia, incluindo diversos afluentes. Embora as operações governamentais recentes tenham contribuído para reduzir temporariamente o ritmo de expansão da mineração, a recorrente retomada das atividades evidencia a necessidade de complementar as ações de fiscalização com estratégias de longo prazo voltadas à proteção territorial, ao fortalecimento da governança e ao monitoramento permanente da região.

No lado colombiano (rio Puré), apesar de o desmatamento associado à mineração de ouro representar uma parcela menor do total registrado na área de estudo (8%, ou mais de 500 hectares), trata-se de um fenômeno recente e em rápida expansão. Além disso, todo o desmatamento relacionado à mineração documentado até o momento ocorreu dentro do Parque Nacional Natural Río Puré, uma área de proteção integral onde atividades de mineração são proibidas. Nesse contexto, registramos quase 600 hectares de desmatamento ilegal associado à mineração de ouro no interior do parque entre 2024 e meados de 2026 (MAAP nº 245). Vale destacar que, antes mesmo do surgimento desse desmatamento, já havia sido reportada a presença de mais de 50 dragas de mineração ao longo do rio Puré, dentro dos limites do parque, em 2024 e 2025 (MAAP nº 228).

Uma preocupação central para ambos os países refere-se aos impactos da mineração ilegal de ouro sobre os povos indígenas em isolamento voluntário. Evidências provenientes da paisagem transfronteiriça Puré-Puruê sugerem que esses povos se deslocam por extensas áreas florestais que ultrapassam os limites políticos entre Brasil e Colômbia. No lado colombiano, os povos Yurí e Passé são oficialmente reconhecidos e protegidos no âmbito do Parque Nacional Natural Río Puré. No lado brasileiro, por sua vez, os indícios da presença de grupos indígenas isolados reforçam a necessidade de investigação, proteção preventiva e monitoramento por parte das autoridades competentes. Enquanto não houver informações mais completas sobre sua presença, padrões de deslocamento e uso do território, a expansão contínua da mineração na região representa um elevado risco de violações de direitos indígenas, incluindo conflitos violentos, transmissão de doenças, contaminação por mercúrio, deslocamento forçado e a perda de acesso a territórios e recursos essenciais para sua sobrevivência física e cultural.

 

Os impactos da mineração ilegal de ouro vão muito além das áreas diretamente desmatadas para a extração mineral e incluem, entre outros efeitos, a contaminação por mercúrio. O mercúrio utilizado no processo de mineração entra no sistema hidrográfico Puré-Puruê-Japurá, gerando riscos para as populações localizadas a jusante, cuja segurança alimentar, meios de subsistência e saúde dependem fortemente dos recursos pesqueiros e de outros recursos aquáticos. A atividade minerária também pode exercer pressões indiretas sobre áreas protegidas vizinhas, como a Estação Ecológica Juami-Japurá, bem como sobre territórios indígenas inseridos na paisagem mais ampla da bacia do rio Japurá. Nesse contexto, a resposta das políticas públicas deve considerar o corredor Puré-Puruê não apenas como um conjunto de áreas afetadas pela mineração ilegal, mas como parte de um sistema integrado de rios e florestas, no qual a contaminação ambiental, a perda de biodiversidade e a insegurança territorial podem se propagar para regiões muito além das áreas diretamente impactadas pela mineração.

Também é importante destacar que a Colômbia implementou uma proibição total do mercúrio em 2023, ampliando restrições que já vinham sendo adotadas desde 2013. A medida inclui a proibição da importação e da exportação de mercúrio em todo o território nacional. Apesar desse marco regulatório, o mercúrio continua sendo amplamente utilizado na mineração ilegal de ouro em áreas de fronteira, como as analisadas neste relatório.

Outro aspecto relevante é que a economia da mineração ilegal está cada vez mais associada a um contexto mais amplo de insegurança e criminalidade organizada. Os municípios de Japurá e Maraã, que funcionam como importantes bases logísticas para o transporte de pessoas, combustível, equipamentos e suprimentos destinados às áreas de mineração, vêm registrando uma presença crescente de grupos do crime organizado.

Essa convergência entre a mineração ilegal, as redes de transporte fluvial e o crime organizado amplia os riscos para além da esfera ambiental. Como consequência, torna-se necessária uma coordenação permanente entre órgãos ambientais, instituições responsáveis pela proteção dos direitos indígenas, forças de segurança pública e órgãos de defesa, em articulação com suas contrapartes colombianas. Em última instância, a proteção efetiva do corredor Puré-Puruê dependerá não apenas do combate direto às atividades de mineração ilegal, mas também do desmantelamento das redes logísticas e financeiras que as sustentam, da proteção das populações e dos territórios localizados a jusante e em áreas vizinhas, e do fortalecimento de mecanismos duradouros de proteção territorial em uma das regiões mais remotas, biodiversas e vulneráveis da fronteira entre Brasil e Colômbia.

Em conclusão, à medida que a mineração ilegal de ouro na Amazônia continua a avançar ao longo da remota fronteira entre a Colômbia e o Brasil, nossas conclusões indicam que as operações binacionais de fiscalização parecem ser eficazes no curto prazo, mas a atividade ilegal tende a retornar rapidamente, muitas vezes em questão de meses. O desafio está na implementação de estratégias de longo prazo em uma região binacional remota, afetada pelo crime organizado e habitada por grupos indígenas vulneráveis, isolados e não contatados. De modo geral, o desafio consiste em fortalecer os esforços voltados à construção de uma estratégia preventiva para combater a mineração ilegal, ao mesmo tempo em que se continua a desenvolver capacidades de resposta operacional e a coordenar ações binacionais em toda a região de fronteira.

A coordenação entre os governos é fundamental, uma vez que insumos, dragas e infraestrutura de mineração são fornecidos por empresários de municípios brasileiros, especialmente Japurá (o centro urbano mais próximo da área), Maraã e Jutaí. Além disso, as mesmas rotas fluviais utilizadas para transportar suprimentos e maquinário também servem para escoar o ouro extraído dessas zonas, seguindo pelo corredor Puré-Puruê e pelos rios Japurá e Tefé até a cidade de Manaus.

Por fim, vale destacar que a Colômbia ativou mecanismos de proteção estabelecidos em 2018 para o Parque Nacional do Rio Puré em resposta a relatórios de risco. Mais recentemente, o Ministério do Interior emitiu o Alerta Precoce nº 1635, em agosto de 2026, determinando uma resposta institucional coordenada entre os Ministérios da Saúde, da Defesa e das Relações Exteriores. No entanto, até o momento, o acompanhamento tem se limitado à coordenação administrativa e à realização de reuniões interinstitucionais, sem novas mobilizações operacionais em campo. O monitoramento por satélite continua registrando invasões, com dezenas de balsas de mineração e centenas de hectares desmatados dentro de áreas protegidas. Embora o sistema tenha como objetivo garantir a integridade territorial e o isolamento dos povos Yurí e Passé por meio de protocolos de contingência sanitária, colaboração com grupos indígenas vizinhos e coordenação com governos locais, além de contar com operações de segurança binacionais com o Brasil, o problema permanece sem solução.

De modo geral, os instrumentos jurídicos necessários já estão em vigor, mas a capacidade de enfrentar a situação atual depende da alocação de recursos pelo governo nacional e da demonstração de vontade política para implementar medidas efetivas no terreno, indo além das formalidades legais e assegurando uma presença operacional capaz de desmantelar a infraestrutura da mineração ilegal ao longo da fronteira.

Agradecimentos

Agradecemos ao Field Museum of Natural History por suas importantes contribuições para este relatório, incluindo a coelaboração na concepção e na redação.