MAAP #248: Implicações do próximo grande evento El Niño para os incêndios na Amazônia

Figura 1. El Niño 2023. Dados: Google Gemini

Em nossa série anual sobre as tendências de perda florestal na Amazônia (MAAP nº244 e MAAP nº229), observamos que as duas temporadas recentes de incêndios mais intensas – 2016 e 2024 –  ocorreram logo após eventos significativos do El Niño

Por exemplo, o forte El Niño no final de 2023 provocou condições de seca extrema que persistiram no ano seguinte, favorecendo incêndios amplamente distribuídos pela Amazônia em 2024. Em contraste, a redução dos incêndios em 2025 esteve associada às condições mais úmidas trazidas pelo La Niña.

Como contexto, a definição de El Niño se baseia no aumento da temperatura da superfície do mar em uma região específica do Oceano Pacífico, localizada a centenas de quilômetros da costa da América do Sul (Figura 1).

Especificamente, uma Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar (SSTA, a sigla em inglês) acima de 0,5°C na Zona El Niño 3.4 caracteriza um evento El Niño (consulte a seção Métodos para mais detalhes). Anomalias acima de 1°C indicam um evento moderado, e acima de 2°C, um evento muito forte.

Coletamos esses dados de SSTA anualmente, de 2002 a 2025, para o período de três meses outubro–novembro–dezembro, que normalmente coincide com o pico das anomalias de temperatura.

Em seguida, analisamos esses valores em relação à perda de floresta primária causada por incêndios no ano subsequente (dados da Universidade de Maryland). A análise foi concentrada nos anos que apresentaram pelo menos um evento El Niño fraco (SSTA > 0,5°C).

Resultados

Figura 2. El Niño e incêndios na Amazônia. Dados: UMD, NOAA

Ao filtrar o conjunto de dados para os anos de El Niño (SSTA > 0,5°C), identificamos oito eventos históricos específicos: 2002, 2004, 2006, 2009, 2014, 2015, 2018 e 2023.

Entre eles:

  • Quatro foram El Niños fracos (SSTA entre 0,5 e 0,9): 2004, 2006, 2014 e 2018;
  • Dois foram moderados (SSTA entre 1,0 e 1,4): 2002 e 2009;
  • Um foi forte (SSTA entre 1,5 e 1,9): 2023;
  • E um foi muito forte (SSTA ≥ 2,0): 2015.

Para avaliar o impacto defasado, o SSTA de cada ano (Ano t) foi associado diretamente à área de perda de floresta primária por incêndios no ano seguinte (Ano t+1).

A Figura 2 apresenta essa correlação visual entre os eventos de El Niño (em azul) e a perda de floresta primária por incêndios (em vermelho).

Vale destacar a observação inicial que motivou este estudo: o grande pico de incêndios em 2016, após o El Niño “muito forte” de 2015, seguido pela temporada recorde de incêndios em 2024, após o El Niño “forte” de 2023.

Apesar do tamanho reduzido da amostra (apenas oito eventos de El Niño desde 2000) e do consequente poder estatístico limitado, a análise revela uma relação positiva clara e consistente entre a intensidade dos eventos de El Niño – isto é, a magnitude da anomalia da temperatura da superfície do mar – e a gravidade da temporada de incêndios subsequente.

A força dessa relação se aproxima do limiar tradicional de significância estatística (p < 0,05), apresentando um valor de p de 0,08 (ver Anexo para detalhes).

Assim, os dados sugerem uma possível relação crescente entre El Niño e a ocorrência de incêndios na Amazônia.

De forma particularmente notável, as duas maiores anomalias de temperatura da superfície do mar – 2015 (+2,34) e 2023 (+1,49) – antecederam diretamente as duas maiores temporadas de incêndios: 2016 (1,76 milhão de hectares) e 2024 (2,79 milhões de hectares), respectivamente.

Por outro lado, anomalias de aquecimento de baixa intensidade (como +0,52 ou +0,73) correspondem a temporadas de incêndios menores, com perdas inferiores a 160 mil hectares, ocorrendo com certo atraso.

Discussão

Conforme detalhado acima, os dados disponíveis indicam uma forte correlação positiva entre a gravidade dos eventos de El Niño e a intensidade da temporada de incêndios na Amazônia no ano seguinte.

Essa correlação se apoia em dois eventos-chave que motivaram esta análise: o pico da temporada de incêndios em 2016, após o El Niño muito forte de 2015; e a temporada recorde de incêndios em 2024 (ver MAAP nº229), após o El Niño forte de 2023.

Atualmente, essas descobertas ganham urgência diante da previsão de um evento El Niño “muito forte” (SSTA > 2°C) no final de 2026 e das implicações para a temporada de incêndios de 2027. Algumas projeções sugerem que o SSTA poderá atingir o maior valor já registrado, aproximando-se de 3°C entre novembro e dezembro de 2026.

A SSTA atual é de +0,47°C, indicando a saída da fase de La Niña e um rápido aquecimento.

O melhor análogo recente é o El Niño muito forte de 2015 e a subsequente queima de quase 1,8 milhão de hectares de floresta primária amazônica em 2016. O análogo mais próximo no tempo é 2023 (ver Figura 1) e a temporada recorde de incêndios de 2024.

Também levantamos a hipótese de que o impacto sobre os incêndios possa se estender para um segundo ano após um grande evento de El Niño – o que poderia explicar as severas temporadas de 2017 (1 milhão de hectares) e 2025 (1,5 milhão de hectares).

Os anos com El Niño mais fraco apresentam um padrão direcional consistente, embora com magnitude de resposta bem menor.

Observamos ainda uma ruptura estrutural importante nos dados: de modo geral, os incêndios tornam-se muito mais intensos a partir de 2016 (área média queimada antes de 2016: ~150 mil ha; após 2016: ~1,0 milhão ha). Esse período antecede ligeiramente, se sobrepõe e continua após o governo do presidente Bolsonaro (2019–2023), que enfraqueceu políticas de fiscalização do desmatamento ilegal. Assim, pode haver uma nova linha de base elevada para a atividade de incêndios na Amazônia brasileira.

Como o El Niño costuma atingir seu pico entre novembro e dezembro – período que marca o início da estação chuvosa (monção) – o mecanismo por trás dessa correlação pode envolver a interrupção do processo de convecção que sustenta a estação chuvosa. A redução do fluxo de umidade poderia prolongar as estações seca e de transição, diminuir a precipitação, intensificar a secura e impedir a recuperação da umidade do solo, deixando a Amazônia mais vulnerável a uma temporada de incêndios intensa.

Por fim, vale destacar que outro estudo recente constatou que os anos com maiores áreas queimadas na Amazônia peruana entre 2013 e 2024 coincidem com eventos de El Niño e condições de seca (Referência 10).

Quão preparados estão os países amazônicos para a próxima temporada de incêndios associadas ao El Niño de 2027?

A experiência de 2024

O El Niño de 2023 e a subsequente temporada de incêndios de 2024 evidenciaram a profundidade da lacuna de preparação em toda a bacia amazônica. As respostas adotadas foram, em grande parte, reativas – acionadas já em meio à crise, apesar de os sistemas de monitoramento terem indicado o risco meses antes. Brasil, Peru e, especialmente, Bolívia foram os países mais afetados, e esta análise de preparação institucional concentra-se nesses três casos. Ainda assim, as condições mais secas provocadas pelo El Niño aumentaram o risco de incêndios em todo o bioma, afetando todos os países amazônicos.

O Brasil montou a resposta nacional mais robusta, embora tardia. Em agosto de 2024 – quase três meses após o início dos incêndios florestais – foi decretado estado de emergência em 45 municípios, e 48 cidades foram colocadas em alerta máximo (Referência 1). No total, os incêndios afetaram diretamente 1,9 milhão de hectares, o maior valor já registrado (MAAP nº229).

O Peru também declarou emergência nacional durante a crise de 2024, ativando mecanismos de coordenação de emergência e solicitação de assistência internacional. Ainda assim, os incêndios afetaram 47.574 hectares, mais que o dobro do recorde anterior (MAAP nº229).

A Bolívia enfrentou sua pior temporada de incêndios já registrada em 2024, com 779.960 hectares afetados – superando amplamente o recorde anterior (MAAP nº229). A principal causa do desmatamento e dos incêndios subsequentes foi provavelmente a especulação agrária. Dois decretos supremos de 2024 concederam isenções tarifárias e incentivos fiscais ao agronegócio, estimulando a demanda por terras para monoculturas de soja, cana-de-açúcar e oleaginosas. Essa expansão foi facilitada por regulamentações que agilizam o desmatamento de até 20 hectares.

O governo boliviano declarou emergência nacional e, posteriormente, desastre nacional, mas a resposta foi prejudicada pela fiscalização frágil: as multas por queimadas ilegais (menos de US$ 20 por hectare) equivalem a cerca de 2% das aplicadas no Brasil. Além disso, tensões entre governos nacional e locais atrasaram a coordenação das ações de emergência. Para conter o desastre, o governo instituiu uma “Pausa Ecológica e Ambiental”, suspendendo licenças de queimada e colocando terras públicas queimadas em quarentena por cinco anos. O relator especial da Comissão Interamericana de Direitos Humanos documentou como essas tensões políticas dificultaram as respostas emergenciais, enquanto políticas voltadas à expansão agressiva da agricultura industrial haviam ressecado grandes áreas do país, deixando os ecossistemas mais vulneráveis ao fogo.

Mudanças implementadas em 2025

O impacto dos incêndios foi significativamente menor em 2025 em comparação a 2024 – 1,5 milhão contra 2,8 milhões de hectares de floresta primária queimados, respectivamente (MAAP nº 244). Vários países amazônicos implementaram políticas mais rigorosas de gestão de incêndios após a temporada crítica de 2024. No entanto, a redução da área queimada não pode ser atribuída exclusivamente a uma melhor preparação institucional: as condições climáticas também foram mais favoráveis, com o fenômeno La Niña trazendo alívio por meio de níveis mais elevados de umidade em todo o bioma.

No Brasil, em fevereiro de 2025, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, decretou uma emergência ambiental preventiva antes da temporada de incêndios, concedendo às autoridades poderes e recursos adicionais para conter focos antes que se espalhassem. O governo federal anunciou a contratação de mais 250 bombeiros federais e destinou R$ 45 milhões para reforçar brigadas estaduais em seis estados amazônicos (Referência 3). Medidas estruturais também avançaram: o Supremo Tribunal Federal determinou que o governo federal e todos os estados da Amazônia e do Pantanal elaborassem planos de gestão de emergências contra incêndios; o Ministério do Meio Ambiente anunciou a criação de “secretarias de governança” em 70 municípios amazônicos – com apoio do FUNBIO e do PNUD – para fornecer veículos, barcos, drones e treinamento para prevenção de incêndios (Referência 4). O programa Prevfogo, do IBAMA, foi ampliado como plataforma integrada de detecção por satélite e resposta em campo. Esses esforços combinados contribuíram para uma redução mensurável da atividade de incêndios em 2025 em relação ao ano anterior (MAAP nº244).

No Peru, em resposta aos eventos de 2024, o Ministério do Meio Ambiente propôs uma Lei de Prevenção e Controle de Incêndios Florestais, que prevê a criação de brigadas regionais e proíbe a mudança de uso do solo em áreas afetadas por incêndios. Contudo, emendas recentes à Lei Florestal (Lei nº 31973) podem comprometer essa abordagem (Referência 5). Sete das 24 regiões do país publicaram planos de prevenção e redução de riscos de incêndios florestais, e um Plano Multissetorial de Resposta a Incêndios Florestais 2025–2027 está em elaboração, baseado em avaliações que classificam quase 20% do território nacional como de risco alto ou muito alto de incêndio.

Na Bolívia, a trajetória legislativa desde 2024 seguiu direção oposta. Grupos do agronegócio pressionaram pela redução das multas por queimadas, e uma reforma agrária que teria acelerado o desmatamento em Santa Cruz e Beni – os departamentos mais afetados em 2024 – chegou a ser promulgada no primeiro semestre de 2026, mas foi posteriormente revogada após protestos sociais (Referência 6). O país enfrenta sua pior crise econômica e política em décadas, e a preparação institucional para a temporada de incêndios de 2027 pode estar seriamente comprometida nessas condições.

Em termos de cooperação regional, o avanço mais significativo recente é o Acordo Operacional de Preparação e Resposta, aprovado pelos países membros da OTCA no início de 2026. Esse marco de cooperação – não vinculativo – estabelece mecanismos para coordenar assistência mútua quando a magnitude dos incêndios exigir resposta conjunta, facilitando a articulação das capacidades nacionais, a troca de informações operacionais e o apoio técnico durante emergências. Paralelamente, os países concordaram em criar o Comitê de Resposta a Incêndios Florestais (CRIF), responsável por desenvolver instrumentos técnicos, procedimentos operacionais e mecanismos de coordenação para aprimorar a preparação e a resposta conjunta (Referência 7).

Em conclusão, a redução da área queimada observada em 2025 nos três países ocorreu sob condições climáticas favoráveis – condições que, conforme nossa análise, provavelmente não estarão presentes em 2027. O verdadeiro teste da preparação institucional ocorrerá sob o estresse imposto pelo El Niño. A arquitetura regional, por sua vez, só pode funcionar tão bem quanto seu elo nacional mais fraco. Em um cenário político deteriorado e sem avanços nas políticas desde 2024, a Bolívia pode se tornar o epicentro da temporada de incêndios de 2027.

Perspectivas para 2026–2027

De acordo com a lista de verificação de preparação para incêndios do El Niño da FAO (Referência 8), há cinco componentes principais para a preparação da temporada de incêndios de 2027.

O primeiro é a Conscientização sobre Incêndios, que envolve compreender as tendências históricas que diferenciam uma temporada típica de uma temporada anômala, além de identificar os fatores que impulsionam grandes incêndios – como a carga de combustível proveniente de áreas recentemente desmatadas – que podem ser incorporados às estratégias de redução de riscos.

Como mencionado anteriormente, os relatórios anuais do MAAP (MAAP nº 229, MAAP nº 244) fornecem tendências históricas sobre o impacto dos incêndios nas florestas primárias da Amazônia, permitindo identificar temporadas intensas ou anômalas, como a de 2024.

Quanto aos fatores que impulsionam grandes incêndios, análises anteriores do MAAP demonstram a forte relação entre desmatamento e incêndios na Amazônia (MAAP nº189). Em geral, os grandes incêndios começam em áreas recentemente desmatadas e podem se espalhar para florestas vizinhas, especialmente durante períodos prolongados de seca, como em 2016 e 2024. No Brasil, mais de 70% dos grandes incêndios atingem áreas recém-desmatadas (MAAP nº189). Na Bolívia, o padrão é semelhante: o desmatamento costuma preceder os incêndios, que depois se expandem para florestas ou savanas próximas.

Assim, uma das principais estratégias para reduzir grandes incêndios em 2027 é minimizar o novo desmatamento em 2026.

O segundo componente é o estabelecimento de Sistemas de Classificação de Risco de Incêndio e Alerta Precoce, bem como a disseminação dessas informações às partes interessadas. À medida que o El Niño se intensificar ao longo de 2026, isso inclui monitorar condições de umidade e seca e emitir alertas correspondentes.

O terceiro componente é a Preparação para Incêndios, que envolve diretrizes para prevenção, detecção e combate, baseadas no sistema de classificação e alerta mencionado acima.

Em termos de prevenção, práticas agrícolas sem uso de fogo poderiam ser promovidas ao longo de 2026 e aplicadas de forma mais rigorosa em 2027, em estreita coordenação com sindicatos rurais e cooperativas locais (Referência 9). As iniciativas das comunidades locais representam um componente essencial dessa preparação, oferecendo exemplos concretos de mecanismos de prevenção, detecção e combate.

Um exemplo são as Ações de Fortalecimento Territorial implementadas em toda a Bacia Amazônica, que demonstram essa abordagem integrada. Comunidades na Colômbia, Peru, Bolívia e Equador vêm desenvolvendo capacidades locais para detecção de incêndios, manejo sustentável (incluindo o uso seguro do fogo) e resposta precoce, ao mesmo tempo em que promovem práticas alternativas à agricultura de corte e queima.

Essa abordagem comunitária é fortalecida por esforços regionais mais amplos, como o programa CoRAmazonia, que promove uma estratégia de Gestão Integrada de Incêndios baseada na integração de conhecimentos técnicos, científicos e tradicionais indígenas. Por meio de plataformas como a ExpoMIF e a Rede Amazônica de Gestão Integrada de Incêndios (RAMIF), o programa destaca o papel crucial dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na governança dos incêndios, enfatizando a importância das brigadas comunitárias, do monitoramento territorial e do resgate da fauna silvestre afetada.

O quarto componente é o de Atividades Pré-temporada de Incêndios, que avalia se as agências estão envolvendo adequadamente as partes interessadas e estabelecendo acordos nacionais.

O quinto componente é Detecção, Comunicação e Despacho de Incêndios, que define os procedimentos e mecanismos de resposta em tempo real.

Em termos de detecção, o monitoramento de incêndios em tempo real deve ser plenamente integrado aos protocolos nacionais de resposta e à coordenação em campo.

Para comunicação e despacho, é fundamental estabelecer planos de contingência que permitam extinguir rapidamente incêndios florestais antes que se espalhem – com atenção especial aos focos que começam em áreas recentemente desmatadas e avançam em direção a áreas protegidas ou territórios indígenas.

No caso específico do Peru (Referência 10), os distritos mais críticos estão concentrados nas regiões de Ucayali, Madre de Dios e Huánuco. Em termos de orçamento público, persistem lacunas na prevenção e resposta a incêndios florestais, resultando em capacidades operacionais limitadas e grandes disparidades na alocação e execução de recursos para gestão de riscos de desastres. De modo geral, há necessidade de fortalecer sistemas de monitoramento, alerta precoce, planejamento e resposta institucional, priorizando áreas com maior vulnerabilidade histórica.

Métodos

A análise combinou duas fontes principais de dados: 1) Índice Oceânico Relativo do Niño (RONI), baseado na anomalia da temperatura da superfície do mar (SSTA), e 2) perda anual de floresta primária causada por incêndios.

O RONI – padrão utilizado pela NOAA para classificar eventos de El Niño (quente) e La Niña (frio) no Pacífico tropical oriental – corresponde à média móvel de três meses da temperatura da superfície do mar (SST) na região Niño 3.4, subtraída da média geral da anomalia da temperatura da superfície do mar tropical (SSTA) no mesmo período. Para este estudo, utilizamos o período de três meses de outubro a dezembro de cada ano.

Os eventos são definidos como cinco períodos consecutivos e sobrepostos de três meses com anomalia igual ou superior a +0,5 para eventos quentes (El Niño) e igual ou inferior a -0,5 para eventos frios (La Niña). O limiar é subdividido em quatro categorias: eventos Fracos (com anomalia de SST de 0,5 a 0,9), Moderados (1,0 a 1,4), Fortes (1,5 a 1,9) e Muito Fortes (≥ 2,0). 

Além da anomalia positiva da SST no Pacífico, reconhece-se que as condições de seca na Amazônia também podem ser influenciadas por anomalias positivas da SST no Atlântico Tropical Norte (Referência 10). No entanto, essa variável não foi incluída em nossa análise.

A análise dos incêndios utilizou dados anuais de perda florestal com resolução de 30 metros, produzidos pela Universidade de Maryland e disponibilizados pelo Global Forest Watch. Esse conjunto de dados sobre perda florestal global causada por incêndios é único por ser consistente em toda a Amazônia – diferentemente de estimativas específicas por país – e por distinguir a perda florestal causada diretamente por incêndios (considerando que praticamente todos os incêndios amazônicos têm origem humana). Foram incluídos apenas os níveis de confiança “médio” e “alto” (códigos 3–4).

Para a linha de base, definimos áreas com densidade de cobertura arbórea superior a 30% no ano 2000. É importante destacar que aplicamos um filtro para calcular exclusivamente a perda de floresta primária, cruzando os dados de perda de cobertura florestal com o conjunto “florestas tropicais úmidas primárias” a partir de 2001 (Turubanova et al., 2018). Para mais detalhes sobre essa metodologia, consulte o Blog Técnico do Global Forest Watch (Goldman e Weisse, 2019).

A análise foi apoiada e revisada pelas IAs Gemini e Claude.

Anexo

Como o subconjunto analisado é restrito (N = 8), o poder estatístico é limitado, mas ainda assim emerge um padrão positivo claro e consistente em várias métricas relevantes.

A correlação linear de Pearson indica uma forte relação linear positiva entre a magnitude da anomalia de aquecimento e a área queimada no ano seguinte (r = +0,6146), aproximando-se do limiar tradicional de significância estatística (p = 0,1049). Essa relação se torna ainda mais forte quando aplicamos o logaritmo natural à área de incêndios – uma transformação que leva em conta a natureza exponencial da propagação do fogo – reduzindo o valor de p para 0,0827.

A correlação de Spearman por postos confirma que valores mais elevados de SSTA estão associados a resultados mais severos em termos de incêndios no ano seguinte (ρ = +0,5476; p = 0,1600).

Resumo das métricas principais:

  • Correlação de Pearson com transformação logarítmica (r log): +0,6474
  • Como a propagação de incêndios florestais tende a ser exponencial, e não linear, o cálculo do logaritmo natural da área queimada (ln{Fire}_{t+1}) reforça a relação, elevando a correlação para quase +0,65 e aproximando-a da margem tradicional de significância estatística (p < 0,10).

Referências

  1. Lancet Regional Health – Americas / PMC. (2025). The 2024 South America ablaze: Health impacts and policy imperatives for protecting population health in an era of wildfires
  2. IACHR (2025) REDESCA publishes report on wildfires in Bolivia and calls for urgent action to address impacts on human rights and ecosystems
  3. Mongabay (2025). Brazil declares environmental emergency ahead of 2025 fire season.
  4. Muggah, R., & Szabo, I. / Mongabay. (2025). Brazil is speeding-up forest fire prevention to avoid dangerous tipping points in the Amazon.
  5. Lancet Regional Health – Americas / PMC. (2025). The 2024 South America ablaze.(Ver nota de rodapé 3.) Seção sobre governança específica do Peru
  6. Copa Pabón, M. V. (2026, May 15). Indigenous protest forces repeal of land privatization law in Bolivia.
  7. ACTO. (2026, February–March). ACTO member countries approve Operational Understanding for Preparedness and Response to Forest Fires in the Amazon Region.
  8. Lista de verificação da FAO para preparação contra incêndios relacionados ao El Niño (2024), conforme apresentada no Centro Global de Gestão de Incêndios e baseada em suas Diretrizes Voluntárias para a Gestão Integrada de Incêndios
  9. Brown F, et al (2026). Alert related to the coming severe dry period, heat waves, fires, smoke and climate in the Madre de Dios-Peru, Acre-Brazil, Pando-Bolivia (MAP) Region – 30 de abril de 2026. Foster Brown
  10. ACCA (2026) El Niño y los incendios forestales en la Amazonía peruana, ¿qué podemos esperar para la temporada 2026-2027?

Citação

Finer M, Bodin B (2026) Implications of upcoming major El Niño event on Amazon fires. MAAP: 248.

Agradecimentos

Agradecemos aos colegas das seguintes organizações pelos comentários úteis sobre o relatório: Conservación Amazónica – ACEAA na Bolívia e Conservación Amazónica – ACCA no Peru.

Este trabalho contou com o apoio da Norad (Agência Norueguesa de Cooperação para o Desenvolvimento).

MAAP #246: Garimpo ilegal de ouro em áreas protegidas na região do rio Juruena, Mato Grosso (Amazônia brasileira)

Mapa-base. Áreas afetadas por garimpo, PN Juruena e PEI do Juruena

O estado de Mato Grosso desempenha um papel fundamental na fronteira sul da Amazônia, atuando como uma zona de transição crítica entre o bioma amazônico, o Cerrado e o Pantanal. Esta localização confere ao estado uma responsabilidade singular na manutenção dos serviços ecossistêmicos regionais, servindo como um “escudo” contra o avanço do desmatamento em direção ao interior da floresta amazônica.

No entanto, o monitoramento recente do uso e cobertura da terra indica uma paisagem em rápida transformação: dados do INPE e da rede MapBiomas revelam que, enquanto outros estados da Amazônia Legal apresentam redução no desmate, Mato Grosso registrou altas recentes, com o avanço de áreas antrópicas sobre remanescentes de vegetação nativa, especialmente em regiões de expansão agropecuária e minerária.

No que tange ao ordenamento jurídico, a mineração no estado é regida por normas que, em tese, deveriam assegurar a integridade do patrimônio ambiental. Entretanto, a existência de marcos regulatórios não garante, por si só, a efetiva proteção socioambiental, uma vez que desafios relacionados à governança, à transparência e à fiscalização da atividade minerária persistem em diversos contextos amazônicos (Amazon Mining Watch, 2026). Além disso, alterações legislativas recentes — como a Lei Complementar nº 788/2024, que trata da realocação de reserva legal para fins de mineração — têm gerado debates sobre a flexibilização da proteção ambiental em propriedades privadas e o impacto indireto em áreas públicas.

Apesar do arcabouço legal, a bacia do Rio Juruena, no norte do estado de Mato Grosso, enfrenta um cenário crítico de expansão do garimpo ilegal (OPAN, 2026). A atividade garimpeira na região do Rio Juruena ocorre desde a década de 1970, quando projetos de incentivo à colonização e a construção de estradas facilitaram o acesso à região, atraindo garimpeiros de diferentes partes do Brasil (OPAN, 2026). Desde então, o garimpo passou a desempenhar um papel importante na dinâmica econômica regional, desenvolvendo-se predominantemente sem controle efetivo do poder público (OPAN, 2026). 

Desde os anos 1990 , há processos minerários na região (OPAN, 2021), e sucessivas ações de combate às atividades ilegais foram realizadas por diferentes órgãos ambientais e de segurança (2006, 2008, 2017, 2020, 2021, 2023 e 2024) . Nas últimas duas décadas, com intensificação nos anos mais recentes, a expansão da atividade garimpeira tem avançado sobre unidades de conservação (UCs) da região do Rio Juruena (Veja o Mapa-base), operando à margem das concessões da Agência Nacional de Mineração (ANM) (Figura A1). 

O Parque Nacional do Juruena e o Parque Estadual dos Igarapés do Juruena estão inseridos em uma região de alta pressão minerária, com predominância de processos em fase de requerimento no entorno imediato, indicando risco crescente de expansão da atividade mineral e intensificação de impactos indiretos sobre as unidades de conservação (Figura A1).

Figura A1: Processos minerários ativos. Fonte: Agência Nacional de Mineração (ANM, junho 2026)

Áreas protegidas ameaçadas

Esse cenário tem agravando os impactos ambientais, incluindo desmatamento, assoreamento, aumento da carga de sedimentos e matéria orgânica nos cursos d’água e a contaminação por mercúrio, o que compromete a biodiversidade e a segurança alimentar das comunidades locais. Este relatório detalha as evidências desse avanço, analisando as pressões exercidas sobre as áreas protegidas do Juruena, entre julho de 2025 e abril de 2026, e os desafios para a fiscalização e integridade territorial da região.

Parque Nacional Juruena

A distribuição espacial da atividade minerária no Parque Nacional do Juruena evidencia uma concentração na porção sudoeste da unidade de conservação (Figura B1).

Figura B1. Área afetada por garimpo no Parque Nacional Juruena. Fonte: Planet.

No Parque Nacional do Juruena, a área afetada por atividade de garimpo apresentou expressiva expansão entre 2025 e 2026 (Figura B2). Em agosto de 2025, a área impactada correspondia a 10,5 hectares, aumentando para 79,5 hectares em abril de 2026. Esse incremento representa uma expansão de 69 hectares e um crescimento de 660% em relação à área inicialmente observada. Em termos proporcionais, a área degradada em 2026 foi aproximadamente 7,6 vezes maior do que a registrada no ano anterior.

Figura B2. Evolução da área afetada por atividade de garimpo no Parque Nacional Juruena, 2025-2026. Fonte: Planet.

A identificação de acampamentos, maquinários e acessos demonstra que a atividade garimpeira no Parque Nacional do Juruena apresenta um grau de estruturação que vai além de intervenções pontuais (Figura B3).

Figura B3. Detalhe das estruturas associadas à atividade de garimpo identificadas no Parque Nacional do Juruena. Fonte: Planet.

O recorte apresentado aqui tem como foco as frentes mais recentes de expansão do garimpo identificadas no período analisado (agosto de 2025 a abril de 2026)  para o Parque Nacional Juruena, contudo os dados disponibilizados pela plataforma Amazon Mining Watch contribuem para contextualizar a dinâmica histórica da atividade minerária no Parque (Figura B4). De acordo com a plataforma, a área cumulativa afetada por mineração no interior da unidade de conservação passou de 240 hectares em 2018 para 730 hectares até junho de 2026, evidenciando um processo contínuo de avanço da atividade ao longo dos últimos anos.

Figura B4:  Resultados do Amazon Mining Watch para o Parque Nacional Juruena
Figura B5. Ação de fiscalização no PN Juruena. Fonte: ICMBio

Há registro de ação de fiscalização ambiental relacionada à atividade de garimpo identificada no PN do Juruena, no município de Nova Bandeirantes (MT) (ICMBio 2026).

Em abril de 2025, foi emitido o embargo, referente a uma área de 17,4 hectares afetada por atividade de lavra garimpeira no interior da unidade de conservação (Figura B5).

De acordo com o registro de fiscalização, a sanção foi aplicada em razão da operação de atividade utilizadora de recursos ambientais, considerada efetiva ou potencialmente poluidora, sem a devida licença do órgão ambiental competente.

A medida teve como objetivo interromper a continuidade da atividade irregular, prevenir a ampliação dos impactos ambientais e assegurar a proteção dos recursos naturais do PN do Juruena.

Segundo informações fornecidas pelo IBAMA/ICMBio, desde 2010 foram realizadas 15 operações voltadas ao combate de garimpos ilegais dentro dos limites do PN do Juruena. A última ocorreu em junho de 2026. O órgão destacou ainda que as atividades ilícitas de garimpo se acentuaram a partir de 2020.

No total, as operações resultaram em cerca de 11 autos de infração, 35 termos de apreensão de bens, 37 embargos, 32 termos de destruição ou inutilização de itens apreendidos, 3 termos de demolição e 1 termo de guarda.

Contudo, todo esse histórico de fiscalização e, mais recentemente, de autuação e embargo realizado, não tem impedido a continuidade e avanço do garimpo ilegal nessa área do PN do Juruena. Tal situação aponta para o quão crônico é o cenário, mas principalmente para a importância da manutenção do monitoramento, fiscalização e rápido combate frente a retomada dessas práticas ilegais nesta região.

Parque Estadual Igarapés do Juruena

Figura C1. Área afetada por garimpo no Parque Estadual Igarapés do Juruena. Fonte: Planet.

No Parque Estadual Igarapés (PEI) do Juruena, a atividade de garimpo ilegal encontra-se concentrada na região centro-sul da unidade de conservação (Figura C1), onde foi observada uma significativa expansão das áreas impactadas entre 2025 e 2026.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A área afetada por garimpo no Parque Estadual Igarapés do Juruena passou de 8,6 hectares em junho de 2025 para 43,7 hectares em março de 2026, correspondendo a um incremento de 408%, evidenciando a rápida intensificação da atividade garimpeira no período (Figura C2).

Figura C2. Evolução da área afetada por atividade de garimpo no Parque Estadual Igarapés do Juruena, 2025-2026 . Fonte: Planet.

A presença de acampamentos, maquinários e acessos no Parque Estadual do Juruena indica a formação de uma infraestrutura mínima de apoio à extração, sugerindo um padrão de ocupação mais estruturado e potencialmente contínuo, com implicações diretas sobre a integridade ambiental da área protegida (Figura C3).

Figura C3. Detalhe das estruturas associadas à atividade de garimpo identificadas no Parque Estadual Igarapés do Juruena. Fonte: Planet.
Figura C4. Ações de fiscalização ambiental em PEI do Juruena. Fonte: SEMA-MT, maio 2026

Em relação às ações de fiscalização ambiental relacionadas à atividade de garimpo nessa região do PE Igarapés do Juruena, foi identificado um auto de infração, emitido pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT) em agosto de 2020 e direcionado a imóvel rural sobreposto a essa região, no município de Colniza/MT (Figura C4).

Posteriormente, em setembro de 2025, consta a emissão de mais um auto de infração pela SEMA-MT em razão da extração mineral sem licença ambiental, resultando na aplicação de multa administrativa. Em 26 de março de 2026, foi emitido o Termo de Embargo para a área em questão, com registro no Cadastro Ambiental Rural (Figura C4).

A medida determinou a suspensão de todas as atividades em uma área de 13,7 hectares em decorrência do desmatamento não autorizado de vegetação nativa em Área de Reserva Legal (ARL) e da realização de atividade de garimpo sem licença ambiental. O embargo teve como objetivo interromper a degradação ambiental, prevenir a ampliação dos impactos sobre a unidade de conservação e promover a recuperação da área afetada.

A sequência de autuações e medidas administrativas, inicialmente em 2020 e, posteriormente em 2025 e 2026, evidencia a recorrência de ações de fiscalização na área e a persistência de pressões associadas à atividade garimpeira sobre o PE Igarapés do Juruena. Nesse cenário, é fundamental o monitoramento constante e a adoção de respostas rápidas de combate em campo para evitar o retorno e ampliação das práticas de garimpo ilegal.

 

Implicações para Políticas Públicas

A ocorrência de atividades ilegais de exploração de recursos naturais, como o garimpo, no interior de unidades de conservação (UCs) de Proteção Integral, aponta para limitações nos mecanismos de fiscalização e controle dessas áreas. Esse cenário é especialmente preocupante na região do Rio Juruena, onde a expansão da atividade garimpeira tem avançado sobre áreas protegidas, gerando impactos como desmatamento, assoreamento dos cursos d’água, aumento da carga de sedimentos e contaminação por mercúrio.

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), instituído pela Lei nº 9.985/2000, em seu artigo 11, §1º, da lei estabelece que nas categorias de Proteção Integral – como Estações Ecológicas, Reservas Biológicas, Parques Nacionais, Monumentos Naturais e Refúgios de Vida Silvestre – é admitido apenas o uso indireto dos recursos naturais, como para fins de pesquisa, turismo e educação ambiental. Nesse sentido, a permanência de atividades de mineração ou garimpo nessas áreas contraria as disposições da Constituição Federal e do SNUC, e compromete a integridade ecológica desses territórios.

Atualmente, conforme apontam dados do Amazon Mining Watch, as ocorrências de mineração e garimpo identificadas no interior das UCs na região do Juruena correspondem a atividades realizadas fora de concessão minerária autorizada, o que indica elevada presunção de ilegalidade. Embora existam instrumentos legais que regulam a atividade minerária e estabelecem restrições para o uso dos recursos naturais em UCs de Proteção Integral, a ocorrência de garimpo fora das áreas autorizadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM) evidenciam fragilidades nos mecanismos de controle, fiscalização e acompanhamento das medidas de proteção territorial. 

Diante desse cenário, se faz necessário o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização e monitoramento das UCs. A adoção de uma plataforma integrada de informações geoespaciais, combinando sistemas de alerta por imagens de satélite com dados atualizados sobre concessões minerárias e limites de áreas protegidas, como UCs e TIs, poderia contribuir para o monitoramento e resposta mais efetiva por parte do poder público. Além disso, é necessário fortalecer a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização, de modo a reduzir a expansão e a retomada de atividades garimpeiras na região.

Nesse contexto, melhorias na plataforma Cadastro Mineiro, gerenciada pela ANM, poderiam representar um avanço relevante na transparência e no controle territorial sobre a atividade minerária na região do Juruena, bem como em outros territórios sob pressão de garimpo em Mato Grosso. Dentre essas melhorias, está a unificação de informações disponíveis no Cadastro Minério, no Sistema de Informações Geográficas da Mineração (SIGMINE) e no portal geográfico do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Isso permitiria, por exemplo, a integração de camadas minerárias e geológicas em um mesmo ambiente de mapa, juntamente com informações mais completas dos processos minerários, tais como o histórico da tramitação. Outras potenciais melhorias passam pela possibilidade de emissão de certidões, uma vez integrados o Cadastro Mineiro e o SIGMINE, e os cruzamentos automáticos de polígonos de concessões minerárias, com áreas protegidas e territórios indígenas, facilitando a identificação de sobreposições, inconsistências e possíveis irregularidades. Uma referência para implementação dessas melhorias pode ser o sistema GeoCatmin, do Peru. Além de fortalecer a capacidade de fiscalização por parte do Estado, uma ferramenta pública e integrada desse tipo ampliaria o acesso à informação para a sociedade civil e instituições de pesquisa, contribuindo para a governança ambiental, a prevenção de ilícitos e a resposta mais ágil a pressões sobre áreas de alta relevância socioambiental.

Diante da recorrência das práticas de garimpo e dos impactos ambientais severos que elas geram, é fundamental que as autoridades intensifiquem as medidas de monitoramento, fiscalização e repressão, garantindo a proteção efetiva das Unidades de Conservação da região do Juruena e a conservação de sua biodiversidade.

Metodologia

A identificação das áreas de desmatamento associadas à mineração de ouro na Amazônia Meridional Brasileira, com foco no Parque Nacional do Juruena e no Parque Estadual Igarapés do Juruena, foi realizada a partir dos alertas de desmatamento por mineração disponibilizados pela Amazon Conservation para o período de junho de 2025 a abril de 2026.

A verificação dos alertas, a delimitação das áreas afetadas e a caracterização da infraestrutura associada ao garimpo ilegal foram conduzidas por meio da interpretação visual de imagens de satélite de altíssima resolução espacial (SkySat, 50 cm). A análise considerou elementos característicos da atividade garimpeira, tais como vias de acesso, acampamentos, maquinário e demais estruturas de apoio à mineração.

Além da análise das áreas impactadas, foram realizadas consultas ao GeoPortal da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT) com o objetivo de identificar ações de fiscalização incidentes sobre as áreas afetadas por garimpos no Parque Estadual Igarapés do Juruena. 

Para o Parque Nacional do Juruena, foram consultadas as plataformas e bases de dados dos órgãos federais responsáveis pela gestão e fiscalização da unidade, incluindo a Plataforma Geoserviços do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o portal Pamgia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Foram pesquisados registros de ações de fiscalização relacionadas à atividade garimpeira na área de estudo, tais como autos de infração, embargos e demais medidas administrativas aplicadas pelos órgãos competentes.

Referências

  1. ANM. AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO (ANM). Dados geoespaciais de processos minerários – SIGMINE. Disponível em: https://geo.anm.gov.br/portal/apps/webappviewer/index.html?id=6a8f5ccc4b6a4c2bba79759aa952d908. Acesso em: 24 jun. 2026. 
  2. BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Dispõe sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm. Acesso em: 15 jun. 2026.
  3. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 15 jun. 2026.
  4. ICMBio. INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. 2026. Dados geoespaciais – Autos de infração (shapefile). Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/dados-icmbio/dados_geoespaciais/mapa-tematico-e-dados-geoestatisticos-das-unidades-de-conservacao-federais/autos_infracao_icmbio_shp.zip. Acesso em: 02 jun. 2026. 
  5. EARTH GENOME. Amazon Mining Watch. 2022. Disponível em: https://amazonminingwatch.org/. Acesso em: 15 jun. 2026.
  6. OPAN. OPERAÇÃO AMAZÔNIA NATIVA. 2026. Boletim de pressões e ameaças às terras indígenas na bacia do rio Juruena. Cuiabá: OPAN. Disponível em: https://amazonianativa.org.br/pub/boletim-de-pressoes-e-ameacas-as-terras-indigenas-na-bacia-do-rio-juruena-2/. Acesso em: 29 jun. 2026. 
  7. OPAN. OPERAÇÃO AMAZÔNIA NATIVA. 2021. Processos minerários na bacia do rio Juruena: implicações para os povos indígenas e a conservação da biodiversidade. Cuiabá: OPAN. Disponível em: https://amazonianativa.org.br/wp-content/uploads/2021/12/OPAN_RT_Processos-minerarios-Juruena-v4.pdf. Acesso em: 25 jun. 2026.
  8. SEMA. Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso. 2026. Geoportal – Autos de Infração e Embargos. Disponível em: https://geoportal.sema.mt.gov.br/. Acesso em: 13 mai. 2026.

Agradecimentos

Este relatório foi produzido em colaboração com a organização brasileira Instituto Centro de Vida (ICV) e com o apoio da Gordon and Betty Moore Foundation.

MAAP #242 Mineração ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami (norte da Amazônia brasileira)

Foto 1. Garimpo de ouro na Terra Indígena Yanomami. Crédito da foto: Lucas Silva/Platô/ISA

A Terra Indígena Yanomami, localizada no norte da Amazônia brasileira (na fronteira com a Venezuela), é um dos territórios mais impactados pelo garimpo de ouro na Amazônia (MAAP #226).

Este relatório detalha os resultados do monitoramento geoespacial da atividade de garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami, com base em dados coletados até dezembro de 2025. Esse território está localizado no norte da Amazônia brasileira, ao longo da fronteira com a Venezuela.

Esse esforço de monitoramento, baseado na análise de imagens de satélite de alta resolução e em dados de monitoramento colaborativo realizado pelas comunidades Yanomami e Ye’kwana, ocorre em um contexto de transição operacional no território, marcado pelos esforços do governo atual para retirar ocupantes ilegais e pela persistência de certos focos de mineração (ver Observação1 abaixo).

Nos últimos anos, esse território enfrentou uma escalada do garimpo ilegal que atingiu seu auge em 2022, resultando em uma crise humanitária e de saúde sem precedentes. Dados atuais produzidos pelo Instituto Socioambiental (ISA) – veja detalhes abaixo – revelam que a área total impactada pelo garimpo chegou a 5.564 hectares em 2025.

No entanto, a análise da série temporal demonstra um ponto de inflexão crítico: após o pico em 2022, o aumento anual de novas áreas impactadas pelo garimpo apresentou quedas significativas e sucessivas nos anos de 2023 a 2025. Comparativamente, enquanto a área acumulada até 2023 representa a maior parte do impacto (cerca de 5.500 ha), houve um aumento documentado de 129 hectares em 2024 e 2025 (83,95 ha e 45,2 ha, respectivamente).

Essa recente desaceleração no ritmo de expansão do garimpo é resultado direto das operações de comando e controle iniciadas pelo governo brasileiro em 2023, pouco depois do reconhecimento oficial da emergência de saúde pública (ver Observação 2). Os dados, no entanto, também funcionam como um alerta: embora a expansão do garimpo tenha diminuído, a detecção contínua em 2024 e 2025 confirma que a atividade garimpeira não foi completamente erradicada.

O monitoramento mensal indica que o garimpo ilegal continua exercendo pressão sobre o território, os garimpeiros estão se adaptando às operações de fiscalização e mantêm núcleos de resistência que exigem continuidade e aprimoramento das estratégias de proteção e monitoramento territorial.

Análise do garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami

Metodologia

Foto 2. Garimpo de ouro na Terra Indígena Yanomami. Crédito da foto: Lucas Silva/Platô/ISA

Os dados apresentados neste relatório baseiam-se no monitoramento conduzido pelo Instituto Socioambiental (ISA). Essa análise é realizada mensalmente a partir da interpretação visual de imagens de satélite da Planet (mosaicos mensais) e do Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia. Os polígonos de impacto do garimpo foram então gerados incorporando: 1) desmatamento recente causado pelo garimpo, 2) áreas de garimpo ativas com solo exposto, 3) áreas recentemente abandonadas com início de regeneração vegetal (revegetação com capim nas áreas anteriormente escavadas), e 4) lagoas de rejeito.

Todos os meses, as regiões impactadas são revisitadas para refinar o mapeamento e verificar possíveis interpretações equivocadas. A análise considera não apenas a assinatura espectral dos objetos, mas também o contexto. Assim, todo o mapeamento é realizado levando em conta a localização das comunidades e de suas áreas de cultivo, entre outras informações sobre a TI Yanomami, como pistas de pouso e postos de saúde, o que permite diferenciar a remoção de cobertura florestal para manejo agrícola tradicional do desmatamento associado à exploração mineral ou a outros tipos de exploração.

O monitoramento remoto sistemático da TI Yanomami começou em 2018, com a experimentação de diferentes metodologias. A partir de 2020, iniciou-se o refinamento das áreas impactadas utilizando mosaicos da Planet (resolução espacial de 3 m). Por essa razão, 2020 é utilizado como o ano inicial da análise detalhada.

Na seção de Observações, também comparamos esses dados de monitoramento conduzidos pelo ISA com informações obtidas pelo Amazon Mining Watch.

Além do monitoramento remoto, desde 2023 foi implementada uma ferramenta de monitoramento colaborativo para registrar eventos que representem riscos às comunidades e às pessoas na TI Yanomami. O Sistema de Alertas ‘Wãnori’ recebe e qualifica denúncias, com o objetivo de fortalecer a comunicação entre as comunidades indígenas, suas organizações e o Poder Público. Por meio de um aplicativo gratuito (ODK Collect), um monitor de alertas pode registrar um incidente de saúde ou uma ameaça ambiental ou territorial, usando um formulário offline composto por coordenadas geográficas e uma descrição do problema em áudio e/ou foto. O sistema utiliza o formulário/aplicativo como principal ferramenta de recebimento das denúncias, mas continua recebendo informações de outras fontes, como mensagens de WhatsApp, cartas e transmissões de rádio, incorporando tudo em um fluxo único. Todos os alertas são compilados em boletins semanais e enviados às autoridades brasileiras.

Resultados

Até dezembro de 2025, a área total impactada pelo garimpo ilegal na TI Yanomami foi mapeada em 5.564 hectares (ver Observação 3 para comparação com o Amazon Mining Watch). Como mostrado no Gráfico 1 (partindo de uma linha de base de 400 ha em 2020), o impacto anual do garimpo aumentou em 2021 (pouco mais de 1.000 ha) e atingiu seu pico em 2022 (quase 1.800 ha), seguido por quedas significativas em 2023 (330 ha), 2024 (84 ha) e 2025 (45 ha), respectivamente. Essa redução foi resultado da intervenção do governo brasileiro, que iniciou, em 2023, um processo de retirada dos garimpeiros ilegais do território, após reconhecer a crise humanitária causada pelo garimpo ilegal entre os povos Yanomami e Ye’kwana.

Gráfico 1 – Aumento anual da área afetada pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.

O monitoramento documentou 45 hectares (distribuídos em 121 polígonos) de desmatamento recente causado pelo garimpo dentro da TI Yanomami em 2025. 

A grande maioria (90%) dos polígonos correspondeu a pequenas expansões de garimpo, com menos de 1 hectare. Esse impacto recente concentrou-se principalmente em seis áreas: 1) Ericó; 2) Cabeceira do Aracaju; 3) Hokomawaë; 4) Parima–Parafuri; 5) Surucucus/Feijão Queimado; e 6) Couto Magalhães (ver Figura 1).

Figura 1. Garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami, com destaque para as áreas de maior impacto em 2025.

Os dois maiores polígonos (quase 4 hectares) foram identificados em Parima (Área 5) e em Surucucus, próximo à pista de pouso do Feijão Queimado (Área 6).

Figura 2 – Comparação entre imagens de janeiro e novembro de 2025 nas proximidades da pista de pouso do Feijão Queimado. O desmatamento recente é claramente perceptível na parte superior da segunda imagem.
Figura 3 – Comparação entre as imagens de janeiro e novembro de 2025 na região de Parima.

A distribuição das novas áreas de garimpo também indica uma tendência de fragmentação da atividade, em contraste com a antiga concentração em torno de pistas de pouso (como Capixaba, Jeremias, Malária e Mucuim). Com exceção da região do rio Couto Magalhães (Área 6 da Figura 1), onde a abertura de novas frentes próximas a cicatrizes antigas continuou (Figura 4), os demais polos de maior concentração, como Alto Catrimani, Médio Uraricoera e Homoxi, parecem estar relativamente neutralizados.

Figura 4 – Mapeamento do garimpo ilegal no rio Couto Magalhães (regiões de Papiu e Kayanau).

Além da descentralização do garimpo, há também um movimento claro em direção às áreas próximas da fronteira com a Venezuela (um possível efeito de transbordamento). É o que mostram as frentes mapeadas em Parafuri–Parima, Hokomawë e Cabeceira do Aracaçá (Áreas 2 a 4 da Figura 1). Parte desse deslocamento se deve à estratégia dos garimpeiros de escapar da fiscalização brasileira recorrendo a bases logísticas instaladas em território venezuelano, como as pistas de Dicão e Simada Ocho.

Em 2025, o sistema de alertas da TI Yanomami registrou pelo menos cinco ocorrências envolvendo aeronaves clandestinas na região de Auaris. Na maioria dos casos, os aviões seguiam rumo a Hokomawë, em direção à pista Gaúcho Animal, na foz do rio Auaris, ou à pista localizada nas cabeceiras do rio Aracaçá (possivelmente a pista Gongo). A Figura 5 detalha a Área 2 da Figura 1.

Figura 5 – Mapeamento do garimpo ilegal nas cabeceiras do rio Aracaçá, nas proximidades da pista Gongo e da fronteira com a Venezuela.

No Sistema de Alertas Wãnori, foram registrados 66 alertas territoriais ao longo de 2025. A grande maioria deles (83%) dizia respeito a invasões (Gráfico 2), categoria que reúne informações sobre a movimentação de aeronaves clandestinas, barcos, balsas e outros veículos. Também houve registros de ataques e da entrada de armas de fogo. Já os casos de desaparecimento foram posteriormente esclarecidos e não tiveram relação direta com violência nas áreas de garimpo ilegal.

Gráfico 2 – Alertas territoriais em 2025, por tipo de alerta

A Figura 6 mostra a distribuição espacial desses alertas, evidenciando novamente a concentração no norte da Terra Indígena, nas proximidades da fronteira com a Venezuela.

Figura 6 – Mapa de calor dos alertas territoriais de 2024 e 2025

A área com o maior número de alertas, Apiaú (Gráfico 3), também aparece entre as regiões que registraram intrusões no espaço aéreo (ver Anexo 1 para evidências fotográficas), possivelmente associadas ao garimpo ilegal no rio Couto Magalhães.

Alto Catrimani também registrou alertas de movimentação aérea. Nesse caso, chama atenção a conexão entre essa atividade e o garimpo ilegal nas cabeceiras do rio Orinoco, já em território venezuelano; uma das regiões com maior intensidade de mineração ilegal nos últimos anos.

Outras áreas que registraram alertas de intrusão no espaço aéreo incluem Auaris e Xitei (ver Anexo 2 para evidências fotográficas). Vale destacar que, embora a pista de Taboca esteja localizada em território venezuelano, ela segue dando suporte aos remanescentes do garimpo ilegal em Alto Catrimani e Xitei, incluindo a frente de exploração próxima à comunidade Pixahanapi. No caso específico do garimpo em Xitei (ver Anexo 3 para o alerta comunitário), os avisos reforçam a preocupação dos moradores com a entrada de munições e armas de fogo levadas por garimpeiros, que buscam recrutar jovens e intimidar lideranças contrárias à atividade mineral na região. Desde 2021, Xitei tem sido palco de conflitos violentos associados ao garimpo, e 2025 não fugiu à regra. Apenas nesse ano, estima-se que ao menos cinco pessoas tenham sido mortas em decorrência desses confrontos.

Graph 3 – Territorial alerts in 2025 by region

Além das violações do espaço aéreo, o sistema de alertas também registrou diversas incursões ilegais pelos rios da TI Yanomami, especialmente nos rios Uraricoera, Catrimani, Apiaú e Ajarani. Em alguns casos, o tráfego fluvial estava ligado à operação de balsas e dragas; em outros, ao transporte de cassiterita ou ao envio de suprimentos para reabastecer os acampamentos.

A região do Baixo Catrimani foi a que mais concentrou registros de invasões fluviais. Entre abril e dezembro de 2025, nove alertas foram emitidos sobre a presença de balsas, dragas e embarcações suspeitas (Figura 7).

Figura 7 – Barco com suprimentos para o garimpo ilegal na região do Baixo Catrimani e draga de mineração operando nas proximidades de uma comunidade Yanomami na mesma área.

A partir de Apiaú, surgiram relatos sobre a existência de uma suposta trilha para quadriciclos que estaria sendo usada para abastecer frentes de garimpo situadas rio acima, desviando do ponto onde a nova base da Funai está sendo instalada. Essa trilha conectaria estradas secundárias já existentes fora da Terra Indígena e alcançaria o igarapé Ingarana, afluente do rio Apiaú (Figura 8).

Figura 8 – Mapa da região de Apiaú indicando a localização do suposto ponto de transbordo.

Por fim, outra região que merece atenção é Ericó, acessível pelo rio Uraricaá, onde foram identificados, em 2025, sinais expressivos de desmatamento associado ao garimpo. Entre 2018 e 2022, havia registros de dragas operando no Uraricaá, mas não existiam indícios claros de garimpo terrestre na área. Com a intensificação das operações em outras partes da Terra Indígena, porém, tudo indica que houve um efeito de transbordamento para essa bacia – que, por estar mais distante dos principais pontos de vigilância, acabou se tornando mais vulnerável. A Figura 9 apresenta um detalhamento da Área 1 da Figura 1.

Figura 9 – Mapeamento do garimpo ilegal no rio Uraricaá.

Anexo

Anexo 1. Registro de aeronave a serviço da operação de garimpo em Apiaú

Anexo 2. Avião de garimpo ilegal registrado em Xitei

Anexo 3. Vídeo enviado ao Sistema de Alertas, que registra a presença de garimpeiros ilegais atuando à noite nas proximidades da comunidade Pixahanapi, em Xitei.

Implicações para Políticas Públicas e Recomendações

A análise dos dados de 2025 indica um ponto de inflexão importante na dinâmica do garimpo ilegal. Embora a área total impactada some 5.564 hectares, observa-se uma redução expressiva e contínua na expansão anual de novas áreas degradadas desde o pico registrado em 2022. Em 2025, foram identificados apenas 45,2 hectares de novas frentes, distribuídos em 121 polígonos, a maior parte deles com menos de 1 hectare.

Apesar dessa retração, torna-se evidente a capacidade de adaptação dos garimpeiros às operações governamentais. Eles têm adotado estratégias de fragmentação e descentralização, deslocando-se para áreas próximas à fronteira com a Venezuela, onde passam a utilizar pontos de apoio logístico situados fora do alcance direto da fiscalização brasileira. Paralelamente, alguns núcleos de garimpo demonstram elevada resiliência, como é o caso da atividade no rio Couto Magalhães.

Com isso em mente, para consolidar os resultados das operações de desintrusão e enfrentar a reentrada da atividade criminosa no território, recomenda-se:

  • Que todos os órgãos de fiscalização mantenham operações de combate ao garimpo ilegal nas áreas remanescentes, com a destruição completa das máquinas utilizadas na extração mineral e a aplicação das sanções administrativas correspondentes.
  • Garantir o monitoramento remoto contínuo da TI Yanomami, bem como respostas rápidas a novos alertas das forças de segurança.
  • Assegurar a manutenção das estruturas físicas e do efetivo mínimo necessário para o funcionamento contínuo dos Postos de Proteção existentes (Ajarani, Xexena, Walopali, Serra da Estrutura e Pakilapi).
  • Finalizar a construção dos Postos de Proteção de Apiaú e Kayanau.
  • Instalar novos Postos de Proteção em rios estratégicos utilizados como rotas do garimpo ilegal, especificamente nos rios Uraricaá e Catrimani.
  • Implementar barreiras fluviais mais eficientes nos rios Uraricoera, Mucajaí, Uraricaá e Catrimani.
  • Promover patrulhamento regular dos órgãos de fiscalização nos rios Uraricoera, Mucajaí, Ajarani, Apiaú, Uraricaá, Catrimani, Parima e Couto Magalhães.
  • Reforçar o controle do espaço aéreo e a aplicação rigorosa do Código Brasileiro de Aeronáutica.
  • Desativar todas as pistas clandestinas e aeronaves apreendidas dentro do território Yanomami (Território Integrado Yanomami).
  • Promover ações regulares de fiscalização em rodovias, postos de combustível, aeroportos e portos localizados no entorno da TI Yanomami.
  • Garantir apoio do governo federal para a implementação do Plano de Vigilância Indígena, integrando as informações do Sistema de Alertas das comunidades às ações estatais.
  • Implementar um cordão sanitário e de proteção territorial rigoroso ao redor do território dos grupos isolados, sob liderança da FUNAI e do Distrito Sanitário, com apoio das Forças Nacionais.
  • Que a FUNAI ou a Casa de Governo conduzam a elaboração de um plano de incentivo ao desarmamento voluntário em regiões sensíveis.
  • Que o governo brasileiro fomente espaços de governança e diálogo, com participação de representantes governamentais, associações indígenas e parceiros técnicos da sociedade civil, para acompanhar a implementação das ações de proteção territorial.
  • Que o governo brasileiro desenvolva, traduza e distribua boletins regulares às comunidades sobre as ações de proteção territorial e seus avanços.
  • Que o governo nacional coordene com o governo venezuelano ações conjuntas para combater os pontos de distribuição logística localizados logo além da fronteira, que funcionam como refúgio e rota de fuga para garimpeiros ilegais.

Observações

  1. A transição operacional refere-se às mudanças no modelo, na regularidade e na intensidade das ações de fiscalização adotadas após a mudança de governo. https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2024/02/29/casa-de-governo-com-foco-na-crise-yanomami-e-instalada-em-rr-com-orcamento-de-r-1-bilhao.ghtml
  2. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/decreto/D11405.htm
  3. Para fins de comparação, o Amazon Mining Watch detectou 2.470 hectares de garimpo na Terra Indígena Yanomami entre 2018 e 2025. Esses dados também mostram um pico em 2022 (aumento de 850 ha), seguido por quedas em 2023 (250 ha) e 2024 (80 ha). O AMW não detectou nenhuma nova área de garimpo em 2025. Importante destacar que os padrões espaciais identificados são semelhantes, com ambos os sistemas de monitoramento apontando a concentração da atividade na porção norte do território.
  4. As bases de proteção são pontos de controle administrados pela Funai que oferecem apoio às operações de outros órgãos de fiscalização, como o Ibama e a Polícia Federal.
  5. As Barreiras Fluviais funcionam como pontos de controle e bloqueios náuticos administrados pela Funai, com apoio do Ibama e da Polícia Federal, para impedir o acesso logístico de garimpeiros e outros invasores aos rios da Terra Indígena Yanomami.
  6. Isso deve envolver as agências reguladoras, juntamente com os órgãos de fiscalização ambiental e de comando e controle, como a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), para inspeções de aeródromos; a Agência Nacional do Petróleo (ANP), para inspeções em postos de combustíveis; e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), para inspeções em estradas e rodovias.

7. https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/urihi-noamatima-thepe-plano-de-vigilancia-indigena-da-ti-yanomami

Agradecimentos

Este relatório faz parte de uma série dedicada ao monitoramento do garimpo de ouro na Amazônia, desenvolvida por meio de uma colaboração estratégica entre a Amazon Conservation e parceiros regionais, com apoio da Gordon and Betty Moore Foundation. Neste caso, agradecemos ao nosso parceiro Instituto Socioambiental (ISA) pela liderança na elaboração deste relatório.

MAAP #240: Expansão da mineração ilegal de ouro na Bacia do Xingu, na Amazônia brasileira (parte 2. Unidades de Conservação)

Base Map. Mining sites in the Xingu Socio-environmental Diversity Corridor. Data: ACA/MAAP, ISA.

Apresentamos a segunda parte de uma série em duas edições sobre o desmatamento causado pela mineração ilegal de ouro na Bacia do Rio Xingu, localizada na porção leste da Amazônia brasileira (estados do Pará e Mato Grosso). Este relatório analisa as operações de mineração em unidades de conservação do Xingu, enquanto a Parte 1 abordou os territórios indígenas (ver MAAP #239)

A Bacia do Xingu concentra a maior ocorrência histórica de desmatamento associado à mineração de ouro na Amazônia brasileira (ver MAAP nº 235). No coração dessa bacia está o Corredor de Diversidade Socioambiental do Xingu, um dos maiores blocos contínuos de florestas designadas do planeta (mais de 26 milhões de hectares) conectando 24 territórios indígenas e 9 unidades de conservação (ver Mapa Base). Apesar das designações oficiais, a região segue ameaçada, sobretudo pela expansão das operações de mineração ilegal de ouro impulsionadas pelos preços recordes do metal.

Para enfrentar esse cenário, foi criada a Rede Xingu+, uma aliança política formada por uma coalizão de organizações que representam a região. A rede monitora mensalmente o desmatamento e outras pressões no Corredor do Xingu, utilizando tecnologia de radar por meio do sistema SiRAD X (link).

Em 2025, a Rede Xingu+ estabeleceu uma parceria com a Amazon Conservation, viabilizando o acesso a imagens de satélite de alta resolução (da Planet), o que permitiu validar alertas e identificar vetores de pressão. Essa colaboração também incorpora a plataforma online Amazon Mining Watch (AMW).

Ambos os sistemas, o SiRAD X e o AMW, detectaram uma grande expansão do desmatamento por mineração de ouro desde 2018 no Corredor Xingu, incluindo a continuidade de atividades ilegais ao longo de 2025. Ao longo do relatório, apresentamos dados de ambos os sistemas, observando suas pequenas diferenças decorrentes de metodologias distintas (Nota 1), embora os padrões gerais sejam consistentes entre os dois conjuntos de dados.

Os dois sistemas de monitoramento detectaram desmatamento recente por mineração em seis unidades de conservação do Corredor Xingu (Nota 2), além dos cinco territórios indígenas reportados na Parte 1.

Na Parte 1, detalhamos o desmatamento recente por mineração de ouro em três desses territórios indígenas (Kuruaya, Baú e Kayapó). 

Já nesta Parte 2, focamos o desmatamento recente por mineração de ouro em três dessas unidades de conservação (a Floresta Nacional de Altamira, a Estação Ecológica da Terra do Meio e a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo) no Corredor Xingu, incluindo a apresentação de uma série de imagens de alta resolução.

O mapa de base indica as áreas de foco desta série, sendo que os pontos A a C foram abordados no primeiro relatório (territórios indígenas) e os pontos D a F no presente segundo relatório (áreas protegidas).

Mineração em Unidades de Conservação

Floresta Nacional de Altamira

A Floresta Nacional de Altamira, no estado do Pará, vem registrando a expansão da mineração ilegal em três áreas, com aumentos expressivos ao longo de 2025.

A atividade minerária teve início nas porções noroeste e oeste entre 2016 e 2018, alcançando 832 hectares desmatados até setembro de 2025. A Figura D1 ilustra o desmatamento recente por mineração na porção oeste, comparando outubro de 2024 (painel esquerdo) e setembro de 2025 (painel direito). Embora existam pedidos de pesquisa mineral para essas áreas, a mineração não é permitida pelo Plano de Manejo nem pelo decreto de criação da unidade (Decreto nº 2.483/1998).

Consultar a Nota 3 para comparação com o AMW.

Figura D1 Dados: Planet, NICFI

Na porção sudeste, a mineração começou em 2024 e atingiu um total acumulado de 36 hectares até outubro de 2025, segundo o monitoramento da Rede Xingu+. A mineração de ouro nessa área correspondeu a 45,7% do desmatamento por mineração registrado em 2025 dentro da FLONA, com pico de expansão em junho. A Figura D2 mostra o desmatamento recente por mineração nessa porção, entre setembro de 2024 (painel esquerdo) e setembro de 2025 (painel direito).

Figura D2 Dados: Planet, NICFI

Estação Ecológica da Terra do Meio

A Estação Ecológica da Terra do Meio desponta como uma nova frente de mineração. Identificada pela primeira vez em setembro de 2024, as operações de mineração expandiram-se rapidamente, alcançando um total acumulado de 30 hectares até o final de 2025, segundo o monitoramento da Rede Xingu+ (ver Nota 4 para comparação com o AMW). A Figura E ilustra essa expansão entre dezembro de 2024 (painel esquerdo) e setembro de 2025 (painel direito).

Embora a Estação Ecológica da Terra do Meio enfrente outras atividades ilegais, como o desmatamento, a presença de operações de mineração ilegal dentro de seus limites é particularmente preocupante. Esse caso não apenas evidencia o grau de avanço dos infratores sobre uma área de proteção integral, como também revela sua elevada capacidade operacional. Essa combinação aumenta o risco de expansão da atividade, com potencial para causar degradação ambiental em outras partes da unidade de conservação.

Figure E. Data: Planet, NICFI

Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo

A Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo está estrategicamente localizada ao longo da rodovia BR-163, no estado do Pará. Trata-se de uma unidade de proteção integral criada pelo Decreto de 20 de maio de 2005, situada entre os municípios de Altamira e Novo Progresso, na região entre os rios Tapajós e Xingu, e adjacente às Terras Indígenas Menkragnoti e Panará em sua porção leste.

A mineração ilegal na Reserva Biológica passou a se expandir sobretudo a partir de janeiro de 2025. Naquele momento, o ponto de mineração – que anteriormente ocupava uma área de dois hectares – foi objeto de denúncia registrada no Ofício nº 01/2025 pela Rede Xingu+. Em junho, a atividade voltou a ser reportada por meio do Ofício nº 15/2025, após uma expansão de 18 hectares, e, em julho, pelo Ofício nº 18/2025, após nova ampliação de 6,82 hectares, totalizando 26,82 hectares.

Dois pontos de mineração estão localizados na porção nordeste da Rebio, abertos em novembro de 2024 e março de 2025, e um terceiro ponto situa-se na porção leste, aberto em junho de 2025. Vale destacar que o ponto localizado na região leste também foi objeto de denúncia registrada no Ofício nº 18/2025, por estar situado sobre – e causando poluição em – um afluente do rio Pitxatxá, curso d’água que margeia a Terra Indígena Menkragnoti e onde se encontram seis aldeias do povo Kayapó.

A mineração ilegal teve início em dezembro de 2024, expandindo-se para um total acumulado de 19 hectares até setembro de 2025, distribuídos por diferentes áreas da unidade de conservação, segundo o monitoramento da Rede Xingu+ (ver Nota 5 para comparação com o AMW).

A Figura F1 mostra o desmatamento recente por mineração na porção nordeste da Reserva Biológica, entre dezembro de 2024 (painel esquerdo) e novembro de 2025 (painel direito).

Figura F1 Dados: Planet, NICFI

A Figura F2 mostra o desmatamento recente por mineração na porção leste da Reserva Biológica, entre junho de 2025 (painel esquerdo) e novembro de 2025 (painel direito).

Figura F2 Dados: Planet, NICFI

A Figura F3 mostra uma nova pista de pouso (aberta em agosto de 2025) na porção leste da Reserva Biológica, entre junho de 2025 (painel esquerdo) e novembro de 2025 (painel direito).

Figure F3 Data: Planet, NICFI

Conclusão e Recomendações

Com base nas informações apresentadas acima (e no relatório anterior MAAP nº 239) fica evidente que a mineração ilegal na Bacia do Xingu não é uma atividade isolada. Ela se disseminou tanto em territórios indígenas quanto em unidades de conservação, avançando para novas áreas e revelando a existência de uma rede de apoio que fornece a capacidade operacional e a infraestrutura necessárias para sustentar essa expansão. A mineração ilegal representa uma ameaça direta às áreas protegidas, tanto pelo desmatamento quanto pela contaminação dos rios pelo uso de mercúrio, afetando ecossistemas sensíveis e as populações que dependem desses recursos. 

A seguir, apresentamos um conjunto de recomendações às autoridades brasileiras relacionadas a: (i) ações de fiscalização; (ii) monitoramento e restauração; e (iii) rastreabilidade das cadeias de fornecimento de ouro.

(i) Ações de fiscalização:

Ações de fiscalização isoladas não têm garantido a proteção de longo prazo das Unidades de Conservação. Por isso, é essencial implementar uma estratégia coordenada entre diferentes órgãos para desmantelar a estrutura logística que sustenta e alimenta a mineração ilegal. Paralelamente, é fundamental estruturar medidas preventivas.

  • Estabelecer bases avançadas permanentes (operadas por órgãos como o ICMBio) nas áreas protegidas mais críticas, garantindo presença contínua para impedir a reocupação das áreas pelos garimpeiros após operações de fiscalização.
  • Concentrar esforços na desativação de pistas de pouso e na apreensão de maquinário pesado (como escavadeiras hidráulicas) dentro das áreas protegidas, em coordenação com a ANAC e a ANP, para bloquear aeródromos clandestinos e pontos de abastecimento no entorno.
  • Reforçar a fiscalização no entorno das áreas protegidas para evitar que atividades de mineração legalizadas nas proximidades funcionem como fachada para a extração ilegal dentro dos limites das unidades, com participação da ANM e apoio de outros órgãos.

(ii) Monitoramento e restauração

Fortalecer a vigilância e a recuperação ambiental é essencial para desencorajar o retorno de garimpeiros ilegais.

  • Apoiar conselhos consultivos/deliberativos e associações de populações ribeirinhas e tradicionais na implementação de protocolos de vigilância, reconhecendo o papel dessas comunidades na manutenção da integridade das unidades de conservação de uso sustentável.
  • Implementar Planos de Recuperação de Áreas Degradadas (PRADs) voltados à revegetação de matas ciliares e à contenção do assoreamento causado por sedimentos do garimpo. Nas áreas federais, a responsabilidade recai sobre o ICMBio; nas unidades estaduais de conservação, sobre o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (IDEFLOR-Bio).

(iii) Rastreabilidade das cadeias de fornecimento de ouro

Implementar um sistema de cruzamento de dados que bloqueie automaticamente a emissão de Notas Fiscais Eletrônicas (NF-e) para minerais cuja origem declarada se sobreponha a polígonos de Áreas Protegidas. Aperfeiçoar a legislação referente à documentação da área de origem nos mecanismos de rastreabilidade, dificultando o “esquentamento” de minerais extraídos ilegalmente de Unidades de Conservação.

Observações

1. Metodologia dos sistemas de monitoramento

Para o monitoramento do Sirad X, são utilizadas imagens de radar do satélite Sentinel-1, processadas por uma série de algoritmos na plataforma Google Earth Engine (GEE), juntamente com imagens ópticas dos satélites Landsat-9 (sensor OLI-2) e Sentinel-2 (sensor MSI). Uma equipe de analistas examina a área monitorada, buscando visualmente anomalias nas imagens produzidas. Cada polígono de desmatamento é avaliado com base em sua proximidade de outras áreas de degradação e no histórico da região e, quando necessário, pessoas familiarizadas com o local são contatadas para confirmar o desmatamento. O conhecimento direto da área é fundamental para a validação dos dados.

Para o Amazon Mining Watch, o detector de minas é uma rede neural artificial treinada para distinguir áreas de mineração de outros tipos de terreno, a partir de exemplos rotulados manualmente que mostram minas e outros elementos relevantes tal como aparecem nas imagens do satélite Sentinel-2. A rede opera sobre blocos quadrados de dados extraídos do produto Sentinel-2 L1C. Cada pixel do bloco registra a luz refletida da superfície terrestre em doze bandas do espectro visível e infravermelho. Os dados do Sentinel são combinados (mediana composta) ao longo de vários meses para reduzir a presença de nuvens, sombras de nuvens e outros efeitos transitórios. Durante a execução, a rede avalia cada bloco em busca de sinais de atividade mineradora recente, e a região de interesse é então deslocada pela metade da largura do bloco para que a rede faça uma nova avaliação. Esse processo se repete até cobrir toda a área de interesse.

Comparações com a Amazon Mining Watch

  1. Floresta Nacional de Altamira, Estação Ecológica da Terra do Meio, Floresta Estadual do Iriri, Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo e Reserva Extrativista Rio Iriri.
  2. Para comparação, o Amazon Mining Watch indica um total de 620 hectares de desmatamento por mineração na Floresta Nacional de Altamira entre 2018 e 2025.
  3. Para comparação, o Amazon Mining Watch indica um total de 3 hectares de desmatamento por mineração na Estação Ecológica da Terra do Meio entre 2018 e 2025.
  4. Para comparação, o Amazon Mining Watch indica um total de 51 hectares de desmatamento por mineração na Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo entre 2018 e 2025.

Agradecimentos

Este relatório faz parte de uma série dedicada à extração do ouro na Amazônia, desenvolvida por meio de uma colaboração estratégica entre a Amazon Conservation e parceiros regionais, com apoio da Gordon and Betty Moore Foundation. Neste caso, agradecemos ao nosso parceiro Instituto Socioambiental (ISA) pela liderança na elaboração deste relatório.

MAAP 239: Expansão do garimpo ilegal na Bacia do Xingu, na Amazônia brasileira (parte 1: Terras Indígenas)

Áreas de mineração no Corredor Xingu. Dados: Amazon Conservation/MAAP and ISA.

A mineração ilegal segue avançando na Amazônia brasileira, muito provavelmente impulsionada pela valorização do ouro. Até o fim de 2025, estima-se que as áreas impactadas por atividades de mineração na região somem cerca de 223 mil hectares, de acordo com o Amazon Mining Watch (consulte também MAAP #197, #226 e #235 para mais detalhes).

Um dado especialmente preocupante é que a maior concentração de desmatamento associado ao garimpo está na Bacia do Rio Xingu, que se estende por aproximadamente 51 milhões de hectares no leste da Amazônia brasileira, entre os estados do Pará e Mato Grosso.

No coração desse território está o Corredor Xingu de Diversidade Socioambiental, um dos maiores blocos contínuos de florestas oficialmente protegidas do planeta – mais de 26 milhões de hectares que conectam 24 Terras Indígenas e 9 áreas protegidas (veja o Mapa-base). Apesar dessas designações legais, a região segue sob forte pressão devido ao avanço constante do garimpo ilegal, da expansão agropecuária, da extração de madeira, da abertura de estradas e das queimadas provocadas por ações humanas.

O corredor abriga 26 povos indígenas, que historicamente têm desempenhado um papel fundamental como guardiões contra o avanço da fronteira do desmatamento. Para enfrentar as pressões crescentes na região, surgiu a Rede Xingu+, uma articulação política que reúne 53 organizações (43 indígenas, 5 ribeirinhas e 5 da sociedade civil) representando as populações que vivem no Corredor. A trajetória dessa aliança remonta aos movimentos de resistência contra o represamento do Rio Xingu, em 1989. Após décadas de mobilização e cooperação entre diferentes povos e organizações, a Rede foi oficialmente formalizada em 2013.

A Rede Xingu+ realiza monitoramento mensal do desmatamento e de outras pressões no Corredor Xingu por meio do SiRAD X (Sistema Remoto de Alerta de Desmatamento do Xingu), que utiliza tecnologia de radar. O sistema também se apoia em uma rede de parceiros locais responsáveis pela vigilância territorial diretamente em campo.

Em 2025, o Instituto Socioambiental firmou uma parceria com a Amazon Conservation, ampliando o acesso a imagens de satélite em alta resolução fornecidas pela Planet. Esse recurso permitiu aprimorar a validação dos alertas e a identificação dos vetores de pressão. A colaboração também integra o painel público Amazon Mining Watch, desenvolvido em parceria pela Amazon Conservation, Earth Genome e Pulitzer Center.

Tanto o SiRAD X quanto o Amazon Mining Watch identificaram uma forte expansão do desmatamento causado pela mineração de ouro no Corredor a partir de 2018, incluindo a continuidade de atividades ilegais no período mais recente, em 2025. Ao longo do relatório, apresentamos os dados dos dois sistemas, destacando pequenas diferenças decorrentes de suas metodologias distintas (Nota 1), embora os padrões gerais observados sejam consistentes entre ambos.

Entre 2018 e 2024, o sistema de monitoramento Sirad X registrou a perda de aproximadamente 11.500 hectares de floresta associados ao garimpo ilegal dentro dos territórios indígenas e das áreas protegidas do Corredor Xingu (o Amazon Mining Watch estima cerca de 16.000 ha), além de outros 400 hectares de janeiro a setembro de 2025, número semelhante ao estimado pelo Amazon Mining Watch.

Atualmente, esse avanço do desmatamento ligado ao garimpo afeta 5 Terras Indígenas (Kayapó, Baú, Kuruaya, Trincheira Bacajá e Apyterewa) e 5 áreas protegidas (Floresta Nacional de Altamira, Floresta Estadual do Iriri, Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo e Reserva Extrativista Rio Iriri) no Corredor Xingu.

Estamos publicando uma série em duas partes sobre o desmatamento causado pelo garimpo ilegal no Corredor Xingu. A Parte 1, apresentada abaixo, concentra-se nas Terras Indígenas; a Parte 2, que será divulgada em seguida, abordará as áreas protegidas.

Nesta primeira parte, detalhamos o desmatamento recente associado ao garimpo em três Terras Indígenas (Kuruaya, Baú e Kayapó), incluindo uma sequência de imagens de alta resolução.

O Mapa Base destaca as áreas de foco desta série: os Pontos A–C são analisados neste relatório (Terras Indígenas), enquanto os Pontos D–F serão abordados no segundo relatório (áreas protegidas).

Mineração em Terras Indígenas

Terra Indígena Kuruaya

A Terra Indígena Kuruaya (localizada no estado do Pará, no município de Altamira) convive com atividades de garimpo de ouro desde o início dos anos 1980, especialmente ao longo do rio Curuá, onde se concentram as aldeias do povo Kuruaya. Nos últimos anos, porém, a atividade mais intensa tem ocorrido em um afluente do Curuá, conhecido como igarapé Madalena.

Desde 2023, o monitoramento da Rede Xingu+ vem registrando a expansão do garimpo ilegal ao longo do igarapé Madalena. Naquele ano, foi protocolada uma denúncia formal (por meio do Ofício 42/2023 – Rede Xingu+), relatando a perda de cerca de 3 hectares devido à atividade garimpeira. Em 2024, a situação se agravou, com o desmatamento de mais 13,4 hectares. E, entre janeiro e julho de 2025, a área de garimpo no Madalena já havia avançado outros 17,8 hectares, totalizando 34,2 hectares acumulados.

As Figuras A1 e A2 mostram a expansão do garimpo ilegal no Madalena entre 2024 (painéis à esquerda) e 2025 (painéis à direita). A atividade avança principalmente em direção à confluência do igarapé Madalena com o rio Curuá. Além disso, surgiram novos pontos menores de garimpo na região ao redor.

Figura A1. Garimpo na Terra Indígena Kuruaya. Dados: Planet/NICFI
Figura A2. Garimpo na Terra Indígena Kuruaya. Dados: Planet/NICFI
Resultados do Amazon Mining Watch para a Terra Indígena Kuruaya.

O Amazon Mining Watch indica um desmatamento acumulado de 33 hectares causado pelo garimpo na Terra Indígena Kuruaya, incluindo 4 hectares somente em 2025 (clique aqui para visualizar no AMW).

Essa atividade ocorre dentro de uma concessão de lavra de ouro ativa registrada no cadastro digital do SIGMINE. No entanto, conforme a Constituição brasileira, esse tipo de concessão (Permissão de Lavra Garimpeira – PLG) não é autorizado em Terras Indígenas (Nota 2).

 

 

 

 

 

 

Terra Indígena Baú

A Terra Indígena Baú (estado do Pará, município de Altamira) é habitada pelos povos Mebengôkre (Kayapó) Mekrãgnoti e Purô isolados, distribuídos ao longo de seus vastos 1,5 milhão de hectares. O garimpo ilegal afeta esse território desde pelo menos 2019 e tem sido palco de diversos conflitos armados entre garimpeiros e indígenas.

Na primeira metade de 2025, foram detectados pontos ativos de garimpo ilegal em diversas partes do território, com destaque para a principal área de garimpo conhecida como Pista Velha. Pista Velha é um antigo local de garimpo, mas foi em 2019 que sua reativação se tornou palco de vários conflitos armados entre povos indígenas e garimpeiros, colocando em risco a vida dos Kayapó. Os esforços para retomar o controle dessa área continuam em andamento e têm sido amplamente reportados pela Rede Xingu+. Em julho de 2025, um sobrevoo confirmou a presença de atividade de mineração em Pista Velha (ver foto).

Foto de sobrevoo: área de garimpo de Pista Velha (Terra Indígena Baú) em 19 de julho de 2025. Foto: Rede Xingu+.

A Figura B ilustra a expansão do garimpo em Pista Velha entre 2024 (painel à esquerda) e 2025 (painel à direita).

Garimpo na Terra Indígena Baú. Dados: Planet/NICFI
Resultados do Amazon Mining Watch para a Terra Indígena Baú

O Amazon Mining Watch indica um desmatamento acumulado de 110 hectares causado pelo garimpo na Terra Indígena Baú, incluindo 10 hectares somente em 2025 (clique aqui para visualizar no AMW)

 

 

 

 

 

 

 

 

Terra Indígena Kayapó

A Terra Indígena Kayapó (estado do Pará, abrangendo quatro municípios) possui um longo histórico de garimpo ilegal que remonta à década de 1960 e é o território com a maior área desmatada por garimpo ilegal em toda a Amazônia brasileira.

As operações do governo para retirar garimpeiros ilegais da Terra Indígena Kayapó começaram em maio de 2025, em cumprimento a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (ADPF 709), que busca não apenas proteger os povos indígenas, mas também conter o avanço do garimpo ilegal.

A primeira fase dessas operações parece ter sido eficaz, já que menos de 2 hectares de novas áreas de garimpo foram detectados em junho de 2025 pelo monitoramento do SIRAD-X. No entanto, dados de outubro indicam um pequeno aumento da atividade, com acréscimo de 15 hectares no território.

As Figuras C1 e C2 mostram o avanço recente do garimpo ilegal em dois pontos da Terra Indígena Kayapó entre 2024 (painéis à esquerda) e 2025 (painéis à direita).

Figura C1. Garimpo na Terra Indígena Kayapó. Dados: Planet/NICFI
Figura C2. Garimpo na Terra Indígena Kayapó. Dados: Planet/NICFI

O Amazon Mining Watch indica um desmatamento acumulado de 7.940 hectares causado pelo garimpo na Terra Indígena Kayapó, incluindo 140 hectares somente em 2025 (veja no AMW). No entanto, grande parte desse aumento foi detectada no primeiro semestre do ano, o que indica que pode se tratar de um remanescente da expansão de 2024. Assim, boa parte da atividade de garimpo recentemente detectada pelo Amazon Mining Watch provavelmente ocorreu no final de 2024 e início de 2025, antes da intervenção governamental em maio, em consonância com os resultados do SiRAD-X mencionados acima.

Resultados do Amazon Mining Watch para a Terra Indígena Kayapó

Conclusão e Recomendações

Com base nas informações apresentadas acima, fica evidente que o garimpo ilegal na bacia do Xingu não é uma atividade isolada. Ele se espalhou tanto por territórios indígenas quanto por áreas protegidas, indicando a existência de uma rede de apoio que fornece a capacidade operacional e a infraestrutura necessárias para sua continuidade. Essa expansão traz consigo uma série de riscos graves para a região e para suas comunidades.

A mineração ilegal representa uma ameaça direta à integridade territorial e ao bem-estar das comunidades ribeirinhas e indígenas. As principais consequências incluem a degradação de áreas nativas e a contaminação dos rios pelo uso de mercúrio. Além dos danos ambientais, a expansão dessa atividade ilegal aumenta o risco de conflitos socioambientais entre garimpeiros e comunidades tradicionais, que buscam proteger seus territórios e seu modo de vida.

A seguir, apresentamos um conjunto de recomendações às autoridades brasileiras relacionadas a: (i) ações de fiscalização; (ii) monitoramento e restauração conduzidos pelas comunidades; e (iii) rastreabilidade das cadeias de fornecimento de ouro.

(i) Ações de fiscalização:

Para garantir a proteção de longo prazo dos territórios indígenas contra o garimpo ilegal, é fundamental ir além das operações imediatas de retirada e estabelecer um marco sustentável e preventivo. Embora o governo brasileiro tenha iniciado ações de desintrusão em resposta a decisões judiciais recentes, ainda não existe uma estratégia de longo prazo para evitar a reincidência dessas invasões. Soluções eficazes e duradouras exigem a atuação de diferentes órgãos reguladores e intervenções estratégicas que ultrapassem os limites geográficos das próprias terras indígenas. Portanto, recomenda-se a adoção das seguintes medidas de política pública:

  • Estabelecer uma força-tarefa permanente e interinstitucional, coordenada pela Casa Civil da Presidência da República, para desenvolver e implementar um plano estratégico abrangente de cinco anos. Esse plano deve focar no desmantelamento das redes econômicas e logísticas externas que sustentam o garimpo ilegal, prevenindo assim o retorno de invasores após a desintrusão. O papel articulador da Casa Civil é essencial para garantir a cooperação entre diferentes ministérios e órgãos governamentais, assegurando uma resposta nacional unificada e eficaz.
  • Promover ações integradas de fiscalização nas áreas do entorno dos territórios, com o objetivo de estrangular logisticamente as operações ilegais. Isso deve envolver órgãos reguladores em conjunto com entidades de fiscalização ambiental e de comando e controle, como a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), para inspeções de aeródromos; a Agência Nacional do Petróleo (ANP), para inspeções de postos de combustível; e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), para inspeções em estradas e rodovias.
  • Fortalecer os órgãos responsáveis pela fiscalização (IBAMA, ICMBio e FUNAI), garantindo que tenham capacidade operacional para atuar regularmente nos territórios destacados, por meio da recomposição orçamentária e de pessoal.
  • Promover a implementação de Planos de Proteção de longo prazo, assegurando orçamento contínuo para a manutenção de ações regulares de fiscalização e repressão a crimes ambientais.

(ii) Monitoramento e restauração conduzidos pelas comunidades:

A promoção e o fortalecimento de iniciativas de vigilância indígena voltadas ao monitoramento e à restauração dos territórios podem complementar as ações conduzidas pelo governo. Um benefício adicional dessas iniciativas é que elas representam alternativas econômicas sustentáveis dentro das próprias terras, reduzindo a vulnerabilidade de jovens ao aliciamento por grupos ilegais. Para isso, as seguintes ações podem ser adotadas:

  • Apoiar a construção e a manutenção de “Centros de Vigilância” em pontos estratégicos (confluências de rios, limites das TIs), geridos pelas próprias comunidades, para garantir a ocupação física de áreas remotas e a produção de informações relevantes que subsidiem ações mais eficazes do Estado.
  • Desenvolver e implementar mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) para agentes comunitários, reconhecendo a vigilância territorial como um trabalho essencial para a conservação do bioma.
  • Fortalecer as ações de governança dentro dos territórios, apoiando reuniões, assembleias e fóruns, além de promover o desenvolvimento de instrumentos de gestão, como os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e Protocolos de Consulta.
  • Promover e financiar ações de recuperação ambiental e de descontaminação/reabilitação nas áreas mais afetadas, além de garantir o monitoramento contínuo dos níveis de mercúrio na população.

(iii) Rastreabilidade da cadeia de fornecimento de ouro:

O governo brasileiro já adotou algumas medidas para aprimorar a regulamentação da cadeia de fornecimento de ouro e passou a exigir o registro formal dos principais atores envolvidos na cadeia do ouro da mineração artesanal e de pequena escala (como garimpeiros, compradores e exportadores). Em 2023, implementou a Nota Fiscal Eletrônica do Ouro (NF-e Ouro), documento obrigatório que verifica e registra a origem do mineral.

Apesar disso, ainda são necessárias medidas adicionais para continuar aprimorando os mecanismos de rastreabilidade do ouro e implementar uma legislação mais robusta para o controle da produção e do comércio mineral. Entre essas medidas está a criação de um portal público digital contendo informações sobre títulos minerários, licenças, embargos e áreas monitoradas, permitindo que compradores verifiquem o local de origem vinculado à NF-e Ouro. Isso contribuiria significativamente para melhorar a rastreabilidade para empresas e compradores que importam ouro do Brasil, promovendo assim uma cadeia de fornecimento mais transparente.

*Observações

  1. Metodologia dos sistemas de monitoramento

Para o monitoramento do Sirad X, são utilizadas imagens de radar do satélite Sentinel-1, processadas por uma série de algoritmos na plataforma Google Earth Engine (GEE), juntamente com imagens ópticas dos satélites Landsat-9 (sensor OLI-2) e Sentinel-2 (sensor MSI). Uma equipe de analistas examina a área monitorada, buscando visualmente anomalias nas imagens produzidas. Cada polígono de desmatamento é avaliado com base em sua proximidade de outras áreas de degradação e no histórico da região e, quando necessário, pessoas familiarizadas com o local são contatadas para confirmar o desmatamento. O conhecimento direto da área é fundamental para a validação dos dados.

Para o Amazon Mining Watch, o detector de minas é uma rede neural artificial treinada para distinguir áreas de mineração de outros tipos de terreno, a partir de exemplos rotulados manualmente que mostram minas e outros elementos relevantes tal como aparecem nas imagens do satélite Sentinel-2. A rede opera sobre blocos quadrados de dados extraídos do produto Sentinel-2 L1C. Cada pixel do bloco registra a luz refletida da superfície terrestre em doze bandas do espectro visível e infravermelho. Os dados do Sentinel são combinados (mediana composta) ao longo de vários meses para reduzir a presença de nuvens, sombras de nuvens e outros efeitos transitórios. Durante a execução, a rede avalia cada bloco em busca de sinais de atividade mineradora recente, e a região de interesse é então deslocada pela metade da largura do bloco para que a rede faça uma nova avaliação. Esse processo se repete até cobrir toda a área de interesse.

2. Mineração em Terras Indígenas. 

De acordo com a Constituição brasileira, a Permissão de Lavra Garimpeira — ou seja, a concessão de exploração para mineração artesanal — é vedada dentro de territórios indígenas. (Molina, Luísa Pontes, 2023. Terra rasgada: como avança o garimpo na Amazônia brasileira. Instituto Socioambiental).

No caso específico analisado, a concessão, outorgada em 1981, é anterior à homologação da Terra Indígena Kuruaya, ocorrida em 2001. Após a homologação, a concessionária (a empresa Brasinor) também apresentou diversos pedidos de concessão para pesquisa mineral dentro do território, que aparentemente foram rejeitados. No entanto, um protocolo relacionado à concessão anteriormente ativa foi aprovado pela Agência Nacional de Mineração em 30 de janeiro de 2026. A legalidade desse ato, bem como da própria concessão, deve ser investigada.

Um princípio consolidado no direito brasileiro é que os direitos territoriais indígenas produzem efeitos antes de seu reconhecimento formal, de modo que o fato de a concessão ser anterior à homologação do território é irrelevante. Caso a autorização da ANM seja considerada irregular, deve prevalecer a vedação constitucional à mineração em terras indígenas, e a concessão deve ser anulada. Uma decisão da Justiça Federal, em 2019, determinou que a Agência Nacional de Mineração deve indeferir qualquer pedido de pesquisa ou lavra dentro de territórios indígenas, mesmo antes de sua aprovação formal.

Agradecimentos

Este relatório faz parte de uma série dedicada à extração do ouro na Amazônia, desenvolvida por meio de uma colaboração estratégica entre a Amazon Conservation e parceiros regionais, com apoio da Gordon and Betty Moore Foundation. Neste caso, agradecemos ao nosso parceiro Instituto Socioambiental (ISA) pela liderança na elaboração deste relatório.

 

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MAAP #211: Estradas ilegais e desmatamento em reservas indígenas e parques nacionais da Amazônia colombiana

Mapa base. Estradas ilegais causando desmatamento recente na Reserva Indígena Llanos del Yari-Yaguara II e no Parque Nacional Chiribiquete adjacente. Dados: MAAP/ACA, FCDS.

Estradas ilegais são uma grande ameaça à Amazônia colombiana, muitas vezes abrindo florestas primárias remotas para os principais causadores do desmatamento: pastagens para gado, grilagem de terras e produção de coca.

Essas estradas ilegais ameaçam áreas protegidas (incluindo parques nacionais) e territórios indígenas (conhecidos como Resguardos na Colômbia).

Em 2024, em colaboração com nosso parceiro colombiano FCDS , documentamos esses impactos em duas áreas importantes no coração da Amazônia colombiana: a Reserva Indígena Llanos del Yari-Yaguara II e o adjacente Parque Nacional Chiribiquete (ver Mapa Base ).

Mais notavelmente, na Reserva Indígena Llanos del Yari-Yaguara II , vemos a construção de uma nova estrada, causando desmatamento maciço de florestas primárias, tanto dentro quanto adjacentes ao território (856 hectares, ou 2.115 acres, no total).

No Parque Nacional de Chiribiquete , vemos a expansão do desmatamento de 64 hectares (158 acres) ao longo de uma estrada ilegal que penetra no setor noroeste desta importante área protegida.

Abaixo, mostramos imagens de satélite para ambos os casos.

Reserva Indígena Llanos del Yari- Yaguara II

Desde março de 2023, uma nova estrada ilegal de 14 quilômetros foi construída nesta área, dos quais 5,3 km estão dentro do setor nordeste da Reserva Indígena Llanos del Yari-Yaguara II, localizada no departamento de Guaviare. As Figuras 1 e 2 mostram que esta construção causou desmatamento massivo: 856 hectares (2.115 acres), dos quais 394 hectares estão dentro da Reserva, entre fevereiro de 2023 (painel esquerdo) e março de 2024 (painel direito). Este desmatamento é presumivelmente para novas pastagens para gado, facilitado pela nova estrada. Observe que a Figura 1 mostra as imagens de satélite sem marcações, enquanto a Figura 2 adiciona marcações para a construção ilegal da estrada e o desmatamento associado.

Figura 1. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal na Reserva Indígena Llanos del Yari- Yaguara II, sem demarcações. Dados: Planet, NICFI.

Figura 2. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal na Reserva Indígena Llanos del Yari- Yaguara II, com marcações. Dados: Planet, NICFI.

Parque Nacional Chiribiquete

No setor noroeste adjacente do Parque Nacional Chiribiquete, o desmatamento continua a se expandir ao longo de uma estrada ilegal existente, conhecida como estrada Tunia-Ajaju , localizada no departamento de Caquetá.  As Figuras 3-6 mostram o desmatamento de 64 hectares (56 hectares na zona B e 8 hectares na zona C) ao longo desta estrada dentro do parque nacional, entre março de 2023 (painel esquerdo) e março de 2024 (painel direito). Este desmatamento é presumivelmente para novas pastagens de gado, facilitadas pela estrada. Observe que as Figuras 3 e 5 mostram as imagens de satélite sem marcações, enquanto as Figuras 4 e 6 adicionam marcações para a construção ilegal da estrada e o desmatamento associado.

Figura 3. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal no Parque Nacional Chiribiquete (zona B), sem marcações. Dados: Planet, NICFI.
Figura 4. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal no Parque Nacional Chiribiquete (zona B), com marcações. Dados: Planet, NICFI.
Figura 5. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal no Parque Nacional Chiribiquete (zona C), sem marcações. Dados: Planet, NICFI.
Figura 6. Desmatamento ao longo da nova estrada ilegal no Parque Nacional Chiribiquete (zona C), com marcações. Dados: Planet, NICFI

Citação

Finer M, Ariñez A (2024) Estradas ilegais e desmatamento em reservas indígenas e parques nacionais da Amazônia colombiana. MAAP: 211

 

MAAP #207: Remoção da Mineração Ilegal do Tepui Sagrado no Parque Nacional Yapacana (Amazônia Venezuelana)

No ano passado, em colaboração com a organização  SOS Orinooco , publicamos um relatório urgente sobre mineração ilegal no topo de um tepui sagrado no coração do Parque Nacional Yapacana, na Venezuela ( MAAP #169 ).

Tepuis  são montanhas deslumbrantes de topo plano encontradas no norte da América do Sul. Elas são consideradas sagradas por grupos indígenas da região; na verdade, a palavra tepui significa “casa dos deuses” em uma língua indígena local. Tepuis também têm altos níveis de endemismo (espécies únicas), já que não estão conectadas a outras cadeias.

Nesse relatório, documentamos  425 pontos de dados de mineração ilegal  (compostos por campos de mineração e maquinário) no topo do tepui, indicando uma operação organizada e em larga escala neste sítio biogeográfico de extrema importância.

Dada a importância desta descoberta, o Washington Post publicou um artigo de grande repercussão sobre o assunto (veja à direita), expondo ainda mais a gravidade da mineração ilegal no tepui.

Em resposta, o governo venezuelano conduziu uma operação militar (liderada pelo Comandante Estratégico Operacional das Forças Armadas) contra a atividade de mineração ilegal no tepui em dezembro de 2022.

Aqui, mostramos uma série de imagens de satélite de altíssima resolução tiradas durante o ataque (dezembro de 2022) em comparação um ano depois (janeiro de 2024).

As imagens revelam que todos os acampamentos e equipamentos de mineração ilegais no topo do tepui foram efetivamente desmantelados . Ou seja, passamos de 425 acampamentos e equipamentos pesados ​​de mineração ilegais visíveis em dezembro de 2022 para zero em janeiro de 2024.

Esta remoção da atividade de mineração ilegal do tepui marca uma vitória importante para a conservação da Amazônia na Venezuela. No entanto, como também detalhado abaixo, mostramos que a mineração ilegal continua em áreas vizinhas dentro e fora do Parque Nacional Yapacana.

Mineração ilegal no Tepui
antes e depois da operação do governo

Figura 1 (veja abaixo) mostra uma vista aérea do tepui em dezembro de 2022, cercado pela floresta tropical de planície do Yapacana National. O branco indica a atividade de mineração ilegal ocorrendo no tepui e no parque (sem incluir as nuvens tênues passando pelo tepui).

Inserções AD indicam os locais dos quatro zooms, onde mostramos uma série de imagens de satélite de altíssima resolução tiradas durante o ataque (dezembro de 2022) versus um ano depois (janeiro de 2024). Observe que em cada imagem, há evidências claras de acampamentos de mineração em dezembro de 2022 (imagem à esquerda) versus nenhum acampamento de mineração restante em janeiro de 2024 (imagem à direita).

Figura 1. Antigos locais de mineração ativos no topo do tepui no Parque Nacional Yapacana. Dados: Planet/Skysat, ACA/MAAP.

Yapacana Tepui, Zoom A.

Yapacana Tepui, Zoom B.

Yapacana Tepui, Zoom C.

Yapacana Tepui, Zoom D.

Mineração continua no Parque Nacional Yapacana

Figura 2. Minas ativas dentro e ao redor do Parque Nacional Yapacana. Dados: Planet/NICFI, ACA/MAAP.

Embora acima tenhamos dado crédito ao governo venezuelano pela remoção da atividade de mineração ilegal do topo do tepui, nesta seção observamos que a mineração ilegal ainda está ocorrendo em vários locais dentro e ao redor do Parque Nacional Yapacana (ver Figura 2 ).

Abaixo mostramos uma série de imagens de satélite de acampamentos e equipamentos de mineração ilegal em vários desses locais ainda ativos: Cacique, Cerro Moyo e Yagua.

Cacique

No sítio Cacique, localizado no setor sul do Parque Nacional Yapacana, perto do tepui, observamos recentemente o que parece ser um aglomerado de acampamentos de mineração.

Figura 3. Zoom do sítio de mineração de Cacique, dentro do Parque Nacional Yapacana. Dados: Planet/Skysat, ACA/MAAP.

Cerro Moyo

No sítio Cerro Moyo, localizado no setor noroeste do Parque Nacional Yapacana, vemos tanto acampamentos de mineração quanto equipamentos.

Figura 4. Zoom do local de mineração de Cerro Moyo, dentro do Parque Nacional Yapacana. Dados: Planet/Skysat, ACA/MAAP.

Yagua

Observe que o sítio Yagua está localizado logo fora do setor sudeste do Parque Nacional Yapacana, mas também é ilegal (toda mineração dentro da província do Amazonas é proibida por lei). Neste sítio, vemos abundante equipamento de mineração.

Figura 5. Zoom do local de mineração de Yagua, fora do Parque Nacional de Yapacana. Dados: Planet/Skysat, ACA/MAAP.

Reconhecimentos

Agradecemos à organização  SOSOrinoco  pelas informações e comentários importantes relacionados a este relatório.

Citação

Finer M, Ariñez A (2024) Desmantelamento da mineração ilegal do Tepui sagrado (Amazônia venezuelana). MAAP: 207.

MAAP #206: Rápida expansão da mineração ilegal na Amazônia equatoriana

Mapa Base. Mineração na área de Punino. Dados: Planet-NICFI, EcoCiencia.

Em uma série de relatórios anteriores, alertamos sobre o surgimento da mineração aluvial na Amazônia equatoriana , especificamente na área ao redor do rio Punino , localizada entre as províncias de Napo e Orellana ( MAAP #151 , MAAP #182 ).

Aqui, destacamos o rápido crescimento da atividade de mineração na área de Punino: 784 hectares em 2023 , o que representa um aumento impressionante de 261%.

Esta atividade de mineração é dedicada principalmente à extração de ouro.

A grande maioria da atividade detectada é mineração ilegal , pois está fora dos limites das áreas autorizadas para mineração. Por exemplo, observe a ameaça que a mineração ilegal representa para a recém-criada Área de Conservação Municipal de El Chaco (veja Mapa Base ).

Rápida expansão do desmatamento mineiro em 2023

A imagem 1 enfatiza a rápida expansão do desmatamento minerador na área de Punino em 2023 ( vermelho ) , em relação aos três anos anteriores (amarelo).

O amarelo indica o desmatamento de mineração de 217 hectares entre novembro de 2019 e dezembro de 2022, enquanto o vermelho mostra a rápida expansão de 784 hectares (1.937 acres) de janeiro a dezembro de 2023.

Assim, no total, a área florestal afetada pela atividade de mineração é de 1.001 hectares (2.474 acres) , de 2019 até o presente.

Além disso, a Imagem 1 mostra claramente que a maioria do desmatamento por mineração está localizada fora dos limites das áreas de mineração autorizadas (roxo). Especificamente, estimamos que 90,4% da área total afetada (904 hectares, ou 2.234 acres) representam mineração ilegal .

Imagem 1. Dinâmica da atividade de mineração entre 2019 e 2023 na área de Punino. Dados: Planet-NICFI, EcoCiencia.

O gráfico 1 mostra a rápida escalada do desmatamento por mineração em 2023 (barras 2, 3 e 4) em relação aos três anos anteriores (barra 1).

Gráfico 1. Desmatamento devido à mineração na área de Punino entre 2019 e 2023

A Imagem 2 mostra, com imagens de satélite de alta resolução , a expansão do desmatamento de mineração na área de Punino entre dezembro de 2022 (painel esquerdo) e dezembro de 2023 (painel direito). As setas vermelhas indicam as principais áreas de expansão da mineração.

Imagem 2.

Agradecimentos

Este relatório faz parte de uma série focada na Amazônia equatoriana por meio de uma colaboração estratégica entre as organizações EcoCiencia Foundation e Amazon Conservation, com o apoio da Agência Norueguesa de Cooperação para o Desenvolvimento ( Norad ).

 

MAAP #204: Nova construção de estrada no território indígena Waorani (Amazônia equatoriana)

Imagem 1. Construção de nova estrada no território Waorani. Foto obtida do monitoramento comunitário da Nacionalidade Waorani do Equador.

Analisamos um novo projeto rodoviário que adentra o setor ocidental do Território Indígena Waorani , localizado no coração da Amazônia equatoriana (ver Mapa Base, abaixo).

O projeto, denominado “Construção da Estrada Arajuno-Nushiño-Ishpingo-Toñampade”, foi concebido em resposta às necessidades de mobilidade de oito comunidades Waorani na área, incluindo Toñampade, a comunidade mais populosa do território.

Esta estrada atravessaria 42 quilômetros de floresta primária do Rio Nushiño até a comunidade de Toñampade. Portanto, há grande potencial para abrir novas frentes de desmatamento ao longo da rota.

Este projeto rodoviário foi gerenciado, aprovado e promovido pela Nacionalidade Waorani do Equador (NAWE) e sua construção é liderada pelo Governo Provincial de Pastaza.

O Estudo de Impacto Ambiental e Plano de Gestão desta estrada foi elaborado em 2016 e aprovado em 2018 e menciona a importância de proteger a biodiversidade da área e a importância cultural das florestas amazônicas no Território Waorani.

Em março de 2023, a Organização Waorani de Pastaza (OWAP) apresentou uma reclamação ao Ministério do Meio Ambiente, na qual solicitou a suspensão da construção da estrada até que a proteção dos ecossistemas fosse garantida.

Em julho, uma assembleia convocada pela NAWE foi realizada para discutir o projeto da estrada, na qual um consenso foi buscado com a OWAP para reiniciar a construção. O acordo foi obtido de que ambas as entidades Waorani e as comunidades de Pastaza fornecerão monitoramento e controle para que as especificações técnicas do Estudo de Impacto Ambiental e Plano de Gestão sejam atendidas.

O objetivo deste relatório é analisar o estado atual da estrada, com foco no desmatamento causado pela construção (ver Imagem 1), e as ações realizadas pelas organizações Waorani para monitorar o projeto.

Mapa Base do Projeto Rodoviário

O Mapa Base mostra a localização do projeto “Construção da Estrada Arajuno-Nushiño-Ishpingo-Toñampade”, localizado no coração da Amazônia equatoriana.

Mapa Base. Área de monitoramento por satélite Nushiño-Toñampade. Dados: Planet-NICFI, EcoCiencia.

Construção de estrada

Para documentar o estado atual da estrada, analisamos imagens de satélite de setembro de 2021 a janeiro de 2024. Encontramos um total de 15,8 quilômetros de construção (veja a Imagem 2).

Em setembro de 2021, foi realizada a construção do trecho rodoviário em direção à comunidade de Obepade, estendendo a estrada construída anteriormente a partir de Arajuno (linha branca), com um novo acréscimo de 2,1 quilômetros (linha amarela).

De julho de 2022 a julho de 2023, a construção foi realizada a partir do Rio Nunshiño, atingindo um total de 13,7 km em direção a Toñampade (linhas laranja e vermelha). Não há evidências de novas construções desde julho de 2023, provavelmente devido à reclamação acima mencionada do OWAP.

Portanto, o projeto ainda precisa construir 28,3 km através de floresta primária para chegar a Toñampade.

Imagem 2. Progresso da estrada Nushiño-Toñampade. Dados: EcoCiencia; Planet-NICFI.

Monitoramento Territorial da Construção de Estradas

Imagem 3.

Em 2022, a Nacionalidade Waorani do Equador – NAWE, por meio de sua equipe técnica territorial Kenguiwe, realizou as primeiras viagens de monitoramento e vigilância territorial para identificar os impactos ambientais e sociais da construção de estradas.

Foram descobertos dois casos onde a construção da estrada gerou processos de desmatamento ao longo do trajeto. Veja a localização desses dois casos na Imagem 2.

No primeiro caso, uma área de 0,54 hectares foi desmatada como consequência da construção da estrada (Imagem 3). Potencialmente esse processo de desmatamento ocorreu para encontrar rotas alternativas à estrada.

No segundo caso, 5,27 hectares foram desmatados, o que também causou um deslizamento de terra.

No segundo caso foram calculados 5,27 hectares de desmatamento , afetando diretamente a cobertura florestal e provocando deslizamento de terra.

No segundo caso, 5,27 hectares foram desmatados, o que também causou um deslizamento de terra.

No segundo caso foram calculados 5,27 hectares de desmatamento , afetando diretamente a cobertura florestal e provocando deslizamento de terra.

Figura 4. Caso 2 de desmatamento no traçado da estrada. Dados: Planeta/Skysat. Fotografias de Monitoramento Comunitário – Equipe de Monitoramento Kenguiwe / NAWE

Monitoramento pela Nacionalidade Waorani do Equador

Aqui apresentamos uma série de fotografias do monitoramento territorial pela Nacionalidade Waorani do Equador, investigando os impactos da construção da nova estrada. Todos os créditos das fotos são do programa de monitoramento NAWE.

Agradecimentos

Agradecemos ao NAWE por facilitar e autorizar o uso das informações e imagens geradas pelo trabalho de monitoramento realizado por sua equipe técnica denominada “Kenguiwe”, com apoio financeiro da Fundação EcoCiencia e da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) por meio do Projeto TerrIndigena.

Este relatório faz parte de uma série focada na Amazônia equatoriana por meio de uma colaboração estratégica entre as organizações Fundación EcoCiencia e Amazon Conservation, com o apoio da Agência Norueguesa de Cooperação para o Desenvolvimento ( Norad ).

 

 

MAAP #203: Desmatamento planejado em massa na Amazônia do Suriname

Mapa Base. Parcelas agrícolas propostas na Amazônia do Suriname. Dados: Mongabay, ACA/MAAP.

Em um artigo recente , a plataforma de notícias de ciência ambiental Mongabay relatou que, de acordo com sua revisão de documentos oficiais, o governo do Suriname está se preparando para desmatar grandes áreas da floresta amazônica para a agricultura .

O Mongabay informou que uma grande quantidade de terra ( 365.704 hectares, ou 903.674 acres) estava sendo destinada a novos lotes agrícolas sendo estabelecidos para o Ministério da Agricultura (354.836 hectares) e incorporadores privados (10.868 hectares).

Isso também é digno de nota porque a agricultura em larga escala não é, historicamente ou atualmente, um fator de desmatamento no Suriname, então essas novas áreas provavelmente desencadeariam uma perda florestal sem precedentes em um dos poucos países restantes do mundo dominados por floresta tropical primária.

Entrelaçados com essa questão estão relatórios adicionais indicando que grupos de menonitas estão planejando se mudar para o Suriname. Essas notícias também levantaram alarmes, dado o extenso desmatamento causado pelos menonitas nas regiões amazônicas do Peru (7.032 hectares) e da Bolívia (210.980 hectares).

Em seu artigo, a Mongabay reuniu informações dos documentos do governo para criar um mapa dos lotes agrícolas propostos. Então, digitalizamos esse mapa, calibramos com coordenadas nos documentos e, então, conduzimos nossa própria análise.

Mapa Base mostra nosso mapa digitalizado das áreas agrícolas, com a inclusão de áreas protegidas e aldeias de povos indígenas e tribais, tudo sobreposto a uma imagem de satélite recente.

Estimamos 467.000 hectares nos novos lotes agrícolas propostos (456.238 ha para o Ministério da Agricultura e 10.394 ha para Fundações apoiadas por incorporadores privados). Observe que isso é substancialmente maior do que a estimativa relatada pela Mongabay. Análises adicionais dos documentos indicam que o total real pode aumentar para 560.000 hectares.

Perda potencial de florestas primárias

Realizamos uma análise adicional observando quanta floresta primária está contida e ameaçada nessas parcelas agrícolas propostas. Esta análise foi baseada em dados da University of Maryland e da Global Forest Watch.

Na Figura 2 , estimamos 451.000 hectares de floresta primária ameaçada nas parcelas agrícolas propostas (441.362 ha para o Ministério da Agricultura e 9.958 ha para fundações apoiadas por incorporadores privados).

Isso resultaria em uma quantidade chocante de perda de floresta primária para um país que sofreu um desmatamento médio anual de 6.560 hectares nos últimos 21 anos (137.746 hectares no total desde 2002).

Citação

Finer M, Goedschalk J, Arinez Z (2024) Desmatamento planejado em massa na Amazônia do Suriname. MAAP: 203.